O mundo mágico – e indelével – dos programas de auditório

(Memórias de infância 2)

1987 foi um ano de grandes lembranças. Principalmente da minha avó materna (e eu não acredito que já faz tanto tempo que ela nos deixou! A família sente sua falta ainda da mesma maneira...). Eu tinha 11 anos e não fazia a menor ideia do que era o mundo ou do que ele iria se tornar e, provavelmente, se soubesse que se tornaria o que vemos hoje nos noticiários eu teria tentado uma manobra para ficar no passado. Mas como? A ciência - decepcionante! - não conseguiu inventar a máquina do tempo. Fora isso, eu estava na sexta série do ginásio (naquela época não chamavam de ensino fundamental) e meus passatempos favoritos eram gibis, seriados toscos asiáticos (que eu já disse em outro texto por aqui) e corridas de Fórmula 1.

Parece pouco eu confesso, mas havia também naquela época um fenômeno clássico entre as famílias de baixa renda: os famigerados programas de auditório. Se você está passando pela casa dos quarenta e não curtiu os programas de auditório daquele período, me perdoe, mas você não teve infância. Eram vários disputando os gostos e atenções de um público que de exigente não tinha mesmo nada. Qualquer atração o mais bizarra ou inusitada possível já era o suficiente para manter a plateia espectadora grudada na tela. Dentre as múltiplas opções três dividiam o meu interesse. Vamos a elas:

Impossível não começar pelo velho guerreiro Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Ele passou por vários canais, mas eu peguei mesmo foi a fase Rede Globo. Todo mundo via e quem negava era quem mais via, não perdia uma semana sequer. Aquele ambiente de picadeiro, escrachado, com as figuras mais exóticas. O Russo, vencedor do concurso de O Homem mais feio do Brasil, jogando para a plateia as mais diferentes "oferendas", o bacalhau de fulano, a ábobora de beltrano, a jaca de sicrano (sempre o nome de alguma personalidade) e entregando aos jurados que eram gongados o mais que famoso troféu abacaxi. Eu e meus primos sempre quisemos ter um nosso, aqui em casa.

Outra particularidade inesquecível eram os jurados do programa, os fixos (a sempre louca Elke Maravilha e o rei momo Édson Santana, de quem acabei sendo vizinho da filha e das netas anos depois) e os convidados de última hora. Era o único programa da televisão brasileira democrático o suficiente ao ponto dos espectadores verem no mesmo palco Roberto Carlos e o cantor brega Ovelha. Artista que comparecia ao Cassino do Chacrinha era certeza de aumento nas vendas de disco e Ibope. E tudo isso acompanhado da beleza exuberante das mulheres mais cobiçadas do país: as chacretes.

Todavia, minha avó (ela era a dona da casa, nada mais justo que determinasse o que deveria ser visto ou não na casa dela) era muito fã de um concorrente do Chacrinha. Seu nome: Edson Cury. Vulgo Bolinha. Os sábados na rede Bandeirantes (onde eu já assistia os desenhos da Hanna-Barbera no programa do Fofão) ficavam sempre mais alegres com o programa desse senhor de voz grave, para lá de alucinado, e capaz de transformar a sua tarde num pandemônio extremamente divertido.

Outro dia desses encontrei um artigo na internet que defendia o Bolinha com unhas e dentes como maior divulgador na televisão nacional da música caipira e da considerada brega pela MPB. E eu assino embaixo. Eram figuras frequentes em seu programa personalidades como Perla, Almir Rogério, Sidney Magal, as Irmãs Marcianas, Tonico e Tinoco e tantos outros. Outra personagem inesquecível era a bolete Zulu, assistente de palco sempre de cara amarrada, de poucos amigos, e sempre sendo alfinetada pelo apresentador. E eu lembro que ficava fazendo figa no sofá da sala para que naquela semana aperecesse o cantor Genival Lacerda, que adorava mexer com ela que, irritadíssima, saía correndo para longe dele.

Acho que foi a primeira vez que eu vi num programa de tv apresentações de travestis, drag queens, transformistas (e confesso que não tinha muita certeza de saber diferenciá-los). O programa do bolinha era isso: uma espécie de lado B do que acontecia no país, aquilo que não tinha muita divulgação pelas grandes rádios e veículos. Hoje eu vejo depoimentos em vídeos da Mofo TV (canal do you tube que apresenta registros históricos do que a tv produzia de melhor no passado) de gente que afirma por a + b que, na verdade, esse era o verdadeiro Brasil e o povo é que era metido a besta demais para admitir.

Para fechar em grande estilo essa trilogia, Fausto Silva no mesmo canal (mas num horário noturno) quebrava com todos os paradigmas da época - e da própria televisão que era feita nesse período - no sensacional Perdidos na Noite. Junto com Tatá e Escova, a dupla de imitadores mais insana da televisão, e dirigido pelo nostálgico Goulart de Andrade, do hoje cult Comando da Madrugada, ele fazia a maior fuzarca que eu já tive o prazer de assistir no período e até hoje.

Com uma música de abertura que satirizava o grito dado pelo ator Johnny Weismuller na série de filmes hollywoodianos Tarzan e a chamada "espelho, espelho meu, existe algum programa pior do que o meu?", a atração abusava do humor chulo, barato, do politicamente incorreto, pesava a mão no quesito improviso (eram famosos os acidentes de percurso, funcionários da equipe tropeçando nos cabos, falhas técnicas na captação das imagens ou do áudio) e não perdia a chance de debochar do país que vivia dias de reencontro consigo mesmo, após o período militar e as Diretas Já.

Aos olhos de hoje, muita gente chamaria o programa de um exemplo de mau profissionalismo, por sua produção precária. Contudo, há quem acredite ter sido esse o verdadeiro charme da atração e tem até quem diga que tudo não passava de uma grande armação proposta pela emissora e que todos os acidentes eram programados previamente. Enfim... Definir Perdidos na noite é para poucos. Mas tudo bem: definir o que era aquela época também não era tarefa nada fácil.

Como concluir uma peripécia dessas, um tempo louco (e como eu sinto falta disso hoje em dia!) em que nós não fazíamos ideia do que iria acontecer no dia seguinte? Os anos 80 eram uma locomotiva desgovernada, meus caros! E essa definição é por si só o melhor comentário que eu posso fazer sobre o período. Saber que esse tempo se foi e o que ficou (principalmente quando o tema é produção televisiva) não supre as suas necessidades mais básicas, acreditem: é devastador. Eu não sei o que esperar do país de hoje nem se há algo de fato a ser esperado. Mas de uma coisa eu tenho certeza: essas memórias ficarão eternamente registradas dentro de mim. Como se fossem uma bóia salva-vidas.

E por menor que pareça isso à primeira vista, é muito mais do que qualquer coisa que estejamos vivendo (ou não) hoje em dia...

 

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