Extra! Extra! Extra!

(uma crônica sobre um país - e um povo - esfacelado)

Um sentimento que resuma a atual situação? Indignação. Mas conheço gente que prefere repulsa, nojo, revolta, impotência... E outros mais, é claro! "Vivemos o pior momento de nossa história", diz uma senhora de mais de 80 anos, que já viveu de tudo, da ditadura às diretas já. "Do jeito que está não dá mais!!!", diz o morador do apartamento 1006 de um prédio de luxo em Ipanema, o mesmo que continua almoçando em belíssimos restaurantes todo santo dia e acreditando que quem deve pagar a conta é a classe trabalhadora, porque na visão dele, é "ela que sempre acaba com a balança econômica do país". "Estamos fodidos e mal pagos, desde que Cabral aportou em nossas terras em 22 de abril de 1500", diz, por fim, o autor deste protótipo de artigo-denúncia.

Conhecem aquela expressão "se ficar o bicho come, se correr o bicho pega"? Chegamos a um ponto em nossa "nação democrática" (ela nunca saiu das aspas) que esse cachorro já saiu do país, porque não é bobo nem nada, muito menos tem vocação para ficar apanhando calado.

Os intelectuais e estudiosos da política econômica tupiniquim já pararam de falar aquela velha frase - tem que chame de refrão - de que "O Brasil é o país do futuro". Hoje somos um Brasil procurando por um futuro. O problema? Nunca tivemos de fato um presente. Guimarães Rosa, mestre de nossas letras, já dizia em seu clássico Grande Sertão: Veredas que o sertanejo era um bravo. E não só ele. O povo brasileiro como um todo o é. Um sobrevivente. Na verdade, somos aquele pugilista amador que apanha durante 10, 12 assaltos sem parar, para no final perdermos por pontos numa decisão equivocada do júri e que merecia uma recontagem que nunca acontecerá.

Que o digam nossas eleições (ou, comumente chamadas, festas da democracia). Só queria saber onde está essa tal de democracia num país onde somos obrigados a comparecer às urnas, a nos alistar militarmente, a sermos ponderados e corretos e não inflingir a lei dentro de um país onde tudo é subvertido pela força da corrupção. Eles podem roubar, matar, fazer e acontecer. Estão protegidos por leis e mais leis criadas por uma elite demagoga e traiçoeira, sempre à espera de que cometamos um deslize para que eles, nobres cavaleiros de armadura dourada, possam nos encarcerar e jogar a chave fora.

William Shakespeare em sua peça mais famosa, Hamlet, disse através de seu personagem homônimo, que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Deveria dar um breve pulo em nossa capital federal, Brasília. Produzida pelas habilíssimas mãos de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa com a clara intenção de criar uma ilha da discórdia, onde os seres mais vis, da pior espécie possível, pudessem confabular - e, claro, surrupiar - nossas maiores riquezas. E de nada adiantou o povo que para lá se mudou na época da construção da cidade dos sonhos, imaginada pelo então Presidente da República, Juscelino Kubitschek, atrás de melhores condições de vida. Eles, pobre coitados, apenas assistem a roubalheira de mais perto. E só.

Vivemos tempos ásperos, de pós-impeachment (O segundo em tão pouco tempo depois do chamado processo de redemocratização, em 1985), de governo cá para nós ilegítimo, e de uma sensação mais do que visível de que apenas mudamos o nome do ladrão. O slogan de Lula, "a esperança venceu o medo" deu lugar à um mais negro: a ignorância deixou o desrespeito vencer.

E o povo reage. Vai às ruas. Desde meados de 2013 vai às ruas, reclama, ofende, grita, resmunga, queima carros, quebra o patrimônio público, destrói modelos do capitalismo corroído do século XXI (as agências bancárias que o digam!), sai no tapa entre si, black blocks vs. policiais, mídia ninja cobrindo aquilo que as mídias tradicionais preferem omitir, bordões os mais diversos, # vem pra rua, não é pelos 20 centavos, FORA DILMA, FORA TEMER, FORA RENAN. Só falta CHEGA DE CONGRESSO NACIONAL!!!!! (assim mesmo: em maiúsculas garrafais, cheio de exclamações, gritado, urrado, repetido ininterruptamente).

Estamos esfacelados. Na alma e no bolso. E ainda por cima querem acabar com todos os direitos trabalhistas garantidos na tal da constituição (será que eram de fato garantidos? ou terá sido tudo um sonho e não percebemos nada todos esses anos?). O futuro acena de longe com uma imagem negra e repleta de incertezas: teremos férias? Quanto tempo de almoço daqui para frente? E o 13º salário? Continuará existindo? Chamam tudo isso de reformas. E tem ainda a Previdência (que mais parece providência, devido ao interesse escuso por trás da proposta) e a tal PEC dos gastos, o maldito ajuste fiscal. Para o povo, é claro! Para os empresários, anistias e isenção de impostos. Afinal de contas, são um reles empreendedores sofridos, minguados, lutam para sobreviver!

Já fomos o bêbado e o equilibrista, como o irmão do Henfil, já seguimos por demais o comportamento geral como o cantado por Gonzaguinha (e é revoltante saber o quanto isso é desumano!), já tentamos outra vez, como nos pediu Raul Seixas, centenas, milhares de vezes, já gritamos juntos com Cazuza para que o Brasil mostrasse a sua cara. E o Brasil, a maior parte do tempo, se acovardou, limitou-se a panelaços e passeatas, com uma ou outra manifestação mais dura. Ainda lembrando o poeta do rock, eles transformaram o país num puteiro, porque assim se ganha mais dinheiro incontáveis vezes. E continuarão fazendo até que algo de prático seja feito da parte daqueles que pagam a conta.

E falando em pagar a conta, recentemente vi mais uma vez - e não me canso de assistir - ao clipe da música Chega, do rapper Gabriel, o pensador. Um alento em meio a uma sociedade omissa (ou covarde, você escolhe o termo que preferir!) que prefere o esconderijo das religiões, a mercantilização da fé, a salvação eterna via pagamento divino, os discursos lascivos de uma literatura de auto-ajuda que mais parece um manual de regras para mentes fracas e ordinárias e um lazer regado ao que existe de mais brega na história da nossa MPB. Valeu, Gabriel! Como é bom saber quando não estamos sozinhos.

O dia de amanhã não chegou. Ainda não. Não aparece nem como reflexo. Parece um sonho distante, daqueles que não queremos acordar de jeito nenhum. Na verdade, existe a possibilidade de que ele não venha, de que ainda não será dessa vez. Dizem por aí que só depende do povo para ele chegar. E tem gente desse tal de povo querendo a volta de tudo de mais retrógrado que já existiu nesse país megalomaníaco. Podem acreditar! O ser humano, quando quer, articula as maiores bizarrices já vistas. Coletividade pode ser uma grande faca de dois gumes.

O que esperar, então? Não, meus caros amigos e leitores, esse não é um texto repleto de esperança ou com propostas, caminhos a seguir. Isso aqui não é uma magic box que promete rebootar o mundo na primeira oportunidade. Leiam o subtítulo do artigo mais uma vez. Falo da realidade e não de um mundo imaginário, distópico, como os criados por mentes geniais como Phillip K. Dick e William Gibson, inventores de universos geniais como os de Blade Runner, o caçador de andróides e Neuromancer, respectivamente. Ao invés de esperar, paremos de sonhar. Deixemos o campo onírico de lado e prestemos atenção nos sinais que o país vem emitindo nos últimos anos. Uma espécie de alarme.

Já passou da hora de cairmos na real. Já passou da hora de criarmos uma fantasia multicolorida, repleta de finais felizes, condizentes com a nossa única e egoísta realidade. Já passou da hora de nos tornarmos pessoas de verdade.

E a questão que falta respondermos a si mesmos, na verdade é: quando?

Denunciar conteúdo

Tem algo a dizer? Esse é seu momento.

Se quer receber notificações de todos os novos comentários, deve entrar no Beevoz com o seu utilizador. Para isso deve estar registado.