Discoteca básica para amadores

(Repartindo conhecimento musical com as novas gerações)

Dentro do shopping numa tarde de domingo, entre as opções óbvias - pessoas se empanturrando de porcarias na praça de alimentação, filas e mais filas de leitores de auto-ajuda inundando as megastores, ropas caríssimas de marca expostas na vitrines dos magos do capitalismo selvagem - vejo uma trupe conversando sobre música na fila do cinema (para quem quiser saber que filme eu estava indo assistir: era O Lar das crianças peculiares, de Tim Burton). O problema? Eu nunca me deparara com uma geração jovem tão carente de valores no segmento musical.

Primeiramente: o grupo em questão girava em torno dos 17, 18 anos. A maioria era de garotos, mas as meninas não ficavam para trás em suas escolhas equivocadas. Um festival de elogios e louvações ao sertanejo universitário (nunca entendi direito a combinação; sempre me pareceram realidades completamente distantes), ao axé music (que eu já considerava ultrapassado há pelo menos uma década!), ao eterno - e sexista - funk carioca (com direito a versão ostentação, muito em voga hoje em dia) e as estrelas internacionais de "primeira grandeza" (leia-se: Rihanna, Kate Perry, Lady Gaga, Beyoncé, Sam Smith, Ed Sheeran, Kanye West, Usher e companhia ilimitada) e uma certeza: a de que o meu cérebro parou no tempo mais tempo do que deveria.

Ouço um princípio de explosão dentro de mim: BUM!!! E fico calado por alguns segundos, acho até que por alguns minutos, pensando. Meditando, melhor dizendo. Meu Deus! Essas pessoas são realmente jovens? Isso está realmente acontecendo? Eles e elas nasceram na época certa? Isso precisava REALMENTE acontecer? Inundado por inúmeras interrogações (as quais não tenho de fato respostas para elas), repenso minha vida, minhas escolhas, meus caminhos. E chego à conclusão feliz (para mim) e temerária (para as novas gerações) de que estou muito bem na fita, no que diz respeito à cultura musical.

E ciente disso e do fato de que não me custa nada - absolutamente nada - repartir meu pouco conhecimento nessa área com os novos consumidores de música, faz-se necessária a montagem de uma discoteca básica para as novas gerações (ou: para aquelas pessoas que, definitvamente, não fazem a menor ideia do que seja bom, audível, adorável ou outros adjetivos similares).

E por que não começar com aqueles artistas que marcaram a minha geração, as Katy Perrys, Beyoncés e Ed Sheeran da minha época? Antes de mais nada: as bandas eram bem mais relevantes do que são hoje. Percebo um interesse muito maior hoje pelos aristas solo do que pelos grupos. Corrijam-me se estiver ficando louco ou caducando! Minha vida não seria absolutamente nada não houvesse existido Michael Jackson e seus eternos e clássicos Off the wall e Thriller. O Rei do pop marcou seu tempo e tendências, que levaram a outros grandes nomes no gênero, como Prince e Madonna. Muitos detratores do ídolo preferem lembrá-lo por suas excentricidades e escândalos, mas Michael - como os fãs bem sabem - sempre foi muito mais do que isso.

No quesito rock n' roll, eram tempos do quarteto irlandês U2 e seu clássico The Joshua Tree (para mim, até hoje insuperável em termos de qualidade artística), a fúria desmesurada de Axl Rose, Slash e a patota do Guns n' Roses capitaneando o escandaloso Appetite for Destruction (uma pena que com o tempo Axl acabou se tornando o déspota que se tornou e acabou com a banda!), o dedão mágico cheio de calos de Mr. Mark Knoppler, líder do Dire Straits, em seu irrepreensível Brothers in Arms, Kurt Cobain e seu rock ácido em Nevermind que nunca envelhece, não importa o quanto queiram rotulá-lo de menor em meio aos gigantes do período, e as bandas nacionais, sempre queridas, como Titãs e o venenoso e até hoje atualíssimo Cabeça Dinossauro, Legião Urbana (do "messias" e vocalista Renato Russo) com As Quatro Estações, lotado de referências (de Camões à Bíblia), RPM e a rebeldia nata em Rádio Pirata ao vivo (considerado até hoje um dos grandes marcos da década de 80).

Logicamente, da paixão por minha época nasce o digestivo desejo de conhecer ídolos de outros tempos (e nesse quesito cabe aqui uma ressalva: não tenho muita certeza se isso se aplica às atuais gerações, que parecem cada dia mais interessadas no próprio umbigo e nada mais). E assim encontrei-me tardiamente - não por minha culpa, pois não era nascido no auge desses seres quase "celestiais" - com figuras ímpares, como o camaleão David Bowie e seu antológico Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, o lúdico Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (como, explique-me se puderem, montar uma lista sem o Fab Four?), Exile on Main Street, o polêmico e marginal álbum dos Rolling Stones (que andam mais relevantes do que nunca!), a androginia, a psicodelia, a loucura nonsense de Jim Morrison à frente do The Doors em Morrison Hotel e L.A Woman e o sempre indispensável Quadrophenia, do trio The Who.

Já na categoria Brasil, fã confesso da tropicália que sou, não poderia deixar de fora o emblemático Tropicália ou Panis et Circensis, combinação de talentos envolvendo Cateano, Gil, Gal Costa, Os Mutantes e o sempre multisonoro Tom Zé. E já que falei de Caetano, por que não celebrar mais uma vez - já existem celebrações mil - o saborosíssimo Transa, álbum quase manifesto político? Mas não esqueçamos de O Clube da Esquina, da patota mineira Milton Gonçalves, Ronaldo Bastos e companhia. de Gonzaguinha, Erasmo Carlos cantando Pega na mentira no clipe do Fantástico e a voz poderosa e inconfundível de Bethânia cantando de tudo.

O tempo passa, eu amadureço, perco parte dos cabelos, e surge Fausto Fawcett e seus robôs efêmeros (e a seguir o programa Básico Instinto, na Rede Bandeirantes, e a moderníssima loiraça belzebu Regininha Poltergheist), num período onde figuras as mais ecléticas, como Ritchie, João Penca e seus miquinhos amestrados, Léo Jaime (ou como definiu Chacrinha: Léo Guanabara) e Rádio Táxi, embalavam os rádios. Veio a descoberta de Phil Collins, baterista do Genesis, e seu maravilhoso Serious Hits, onde reúne sua coleção de sucessos (cheguei a comprar um CD novo quando o meu arranhou; ou arranharam, vai saber!). A paixão por Blade Runner - o caçador de andróides, ficção científica do diretor Ridley Scott, me fez querer conhecer mais as trilhas sonoras de Vangelis. E por isso passo a informação adiante. Ouçam, além de Blade Runner, as trilhas de Carruagens de Fogo e 1492: A Conquista do Paraíso. E fechemos - pelo menos, por hora - trazendo de volta o beatle Paul McCartney e seu álbum duplo ao vivo Back in the U.S, que eu conheci inicialmente como um documentário (ou será melhor chamar de concert film? Vocês decidem!).

Eu sei, eu sei, my friends, o que vocês dirão, mais uma vez nesse canal: "faltou fulano", "faltou beltrano", "faltou sicrano", "o álbum x é melhor do que y", "você deixou de fora o heavy metal", "você esqueceu de falar sobre...". Sorry, my friendes, não é possível - pelo menos não nessa encarnação - agradar a todas as classes, gostos, tipos. Não. Nesta vida, não. E além disso, como disse lá no início do artigo, prometi uma discoteca básica (procurem a definição da palavra no google, assim que possível).

Minha única tristeza após todo esse palavrório é não poder entregar este texto ao distinto grupo, o da fila de cinema. Pois acreditem: eles precisam de uma reformulação musical urgente. Ninguém merece aturar o que as rádios e as lojas andam vendendo atualmente. Não mesmo!

 

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