O outro lado da dor

(Quando a tragédia vira sensacionalismo)

Relutei muito em voltar a esse assunto, mas não adianta: está na minha natureza ser crítico desse mundo contemporâneo cheio de controvérsias que se apresenta diante dos meus olhos todo dia...

Acredito que seja a primeira vez desde que comecei a escrever para este site que um tema me desperta a curiosidade por desdobrar um raciocínio já exposto previamente. Contudo, faz-se mais do que necessário o meu relato aqui, tendo em vista as repercussões que a tragédia envolvendo o voo dos jogadores do Chapecoense tomou nos últimos dias. Refiro-me não só especificamente a decisão arbitrária (para não dizer sórdida) de nossos dirigentes em se utilizar do momento de fragilidade da população diante da tragédia para votarem na calada da noite pela desfiguração do projeto anti-corrupção proposto previamente, e com isso provocando - pois é disso que se trata - um racha em meio ao julgamento da Lava-Jato, que pretende encerrar suas investigações, caso a nova abordagem adotada siga em frente, como também a da sentimentalóide postura da mídia (mídia essa claramente de cunho empresarial) de transformar o ato já bárbaro por natureza numa sucursal da eterna mania da imprensa de transformar qualquer tragédia em fato apelativo, de comoção popular em excesso.

Não é de hoje, entretanto e infelizmente, que nossas emissoras de televisão utilizam-se de recurso tão torpe para desviar de fatos, esses sim, de suma importância para realidade do país. Há quem diga, no próprio meio, que é nesse quesito que reside o "charme" da profissão.

Que o diga a emissora mais famosa do país (vocês sabem de quem falo), retrato vivo do que se pode chamar de quarto poder em nossas terras repletas de vilões, falsários, mentirosos e outras figuras típicas. Não é de hoje que ela se autointitula bastião da moralidade nessa República de bananas disfarçada de país emergente em que vivemos. Essa sempre foi sua maior característica: promover a moral através da distorção da realidade, criando personagens e cenários os mais irreais possíveis, mas travestidos de uma elegância e de um discurso pomposo, na tentativa de cooptar os inocentes, os iludidos e os mal formados a seu favor.

No caso da tragédia na Colômbia envolvendo os jogadores do Chapecoense isso ficou bastante claro na maneira como ela transmitiu o velório dos atletas em rede nacional, interrompendo sua programação costumeira, com a clara intenção de criar um teatro que beira o patético, com um apresentador (esse um conhecido narrador de jogos da emissora) que é o protótipo máximo do estrelismo e do piegas. E tudo isso com um único objetivo: distrair a população nacional, causar uma comoção abertamente gratuita, num momento em que o país se encontra em uma de suas maiores crises sociais e políticas.

Em nenhum momento desejo aqui diminuir o impacto da tragédia aérea. A eles, os jogadores, todo o meu sentimento e pesâmes. Porém, não poderia me calar sem relatar aqui um traço típico de nossa cultura disforme: a de usar a dor de muitos em favorecimento de uma elite política que adora se locupletar da desgraça alheia. E mais: com um sarcasmo digno dos maiores ditadores da história mundial. A clara mentalidade de manipulação das massas.

Quando fazia faculdade convivi de perto com os alunos do curso de jornalismo e percebi neles, em sua grande maioria, uma triste semelhança: existe uma mentalidade "quero ser celebridade, quero ser o centro das atenções" típica na maioria dos estudantes que escolhem essa área. O desejo de reportar, informar a sociedade, investigar as mazelas do país, está sempre em segundo plano. O objetivo maior é o de se vangloriar e com isso fazer de seu nome uma marca registrada em meio a um mercado cheio de estrelismos e a clara falta de apuração dos fatos devida. Até os ídolos dessa geração são pessoas que eu tenho vergonha de chamar de jornalistas. Vocês poderão até dizer: "meu caro, isso é um mal do século em todas as profissões". Mesmo assim, por se tratar de uma profissão que pretende - nem que seja na superfície - averiguar fatos ocorridos num país cheio de reveses como o nosso e esmiuçar a realidade seja lá como ela se apresente, isso se mostra por demais grave e, porque não dizer, vulgar. Um claro caso de mesquinharia acadêmica.

E quando o assunto em questão na esfera jornalística é a dor alheia essa postura do profissional de mídia se mostra, muitas vezes, ainda mais acintosa, oportunista, beirando o diabólico em alguns casos. Mesmo que disfarçada de uma demagogia que se esconde através de sentimentos como solidariedade, afeto e compaixão. Que bom seria se o ser humano em sua vida pública fosse um por cento do que diz aos noticiários, quando vê diante de seu rosto um microfone e tem direito à fal!

Por isso e por não aguentar mais essa mentalidade torpe dos demagogos que se dizem formadores de opinião no país, não poderia deixar passar aqui esse desabafo em forma de denúncia. Até quando teremos que aturar famílias, como as de Chapecó, como as da tragédia ambiental de Mariana (outro caso recente explorado em exaustão por essa mesma mídia cafajeste), sendo privadas de seu direito legítimo à dor, por conta de uma postura empresarial que adora explorar o sofrimento como mercadoria barata, mais afeita a um acinte chamado audiência, tornando a vida cotidiana num espetáculo teatral bizarro e desnecessário?

Que Deus tenha piedade de nós e nos livre dessa geração de insensíveis. Pois está cada vez mais difícil ser brasileiro.

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