Caviar é uma ova, coxinha!!!

(Gregório Duvivier fez o livro do ano?)

Aprendi a gostar do ator, escritor e comediante Gregório Duvivier desde a primeira vez em que li um texto seu. Achei-o direto, ácido, sem rodeios, o tipo de pensador que anda em falta na atual (e esquizofrênica) sociedade brasileira. Como membro do grupo Porta dos Fundos - do qual sou fã ardoroso -, considero o integrante mais sagaz de toda a galera. O único realmente não comprometido a agradar os moralistas e demagogos de plantão. Quando li seu livro de crônicas anterior, Put some farofa, percebi imediatamente que estava diante de um cronista inquieto, lutando dentro de si para não expressar o que de mais incômodo tinha para dizer ao grande público (e não conseguindo, é claro!).

O tempo passou, Gregório apareceu em outras frentes - debatedor, poeta, roteirista - e decidiu agora, depois de um breve hiato, se aventurar de novo pelo mundo da crônica. Dessa vez, a meu ver, com mais sucesso ainda.

Em Caviar é uma ova (não encontrei título melhor para um livro nessa temporada 2016) o escritor e humorista pisa mais fundo ainda no acelerador e nos apresenta um grande painel dos últimos anos do país, marcado não só pelo Impeachment da Presidente Dilma como pelas sucessivas manifestações e "batalhas" entre coxinhas e mortadela. Ainda na contracapa do livro é possível ver declarações emocionadas de fãs famosos (como o ator Wagner Moura e o cantor Chico Buarque), definitivamente boquiabertos com a ousadia do autor. Ou seria melhor chamar de cara de pau?

Declarações de amor e respeito à parte, vamos aos fatos: ao fim da leitura fica clara a sensação de que Gregório não perdoou ou esqueceu ninguém. Passeia com segurança pelos temas mais inusitados e obscuros. Não se exime de metralhar a violência de SP e a carestia do Rio Surreal, não deixa de citar as amizades construídas ao longo da carreira, se derrama em elogios ao Chaves, personagem criado por Roberto Gomes Bolaños, quintessência da sua infância, faz um grande ensaio sobre a "arte de ser assaltado" e suas diferentes categorias, entre outras bossas mais sórdidas.

Desfilando entre o Gregório apaixonado pela ex-namorada Clarice Falcão (que ganha um texto só para si ao final do livro) e o ferrenho crítico da cultura do preconceito que rege o país, ele acaba por transformar sua obra numa grande catarse pessoal, e em nenhum momento foge da briga com antigos desafetos.

Gostaria de ter escrito o grande romance do século XXI (não aconteceu, ainda), gostaria de ter profetizado a eleição do seu candidato à prefeitura, Marcelo Freixo (infelizmente, não foi dessa vez), não esconde de seus leitores o drama familiar, do irmão que sofre da síndrome de Apert e da luta de sua mãe, a cantora Olívia Byington, para lidar com a situação (luta essa que gerou por si próprio um livro). Enfim... Gostaria de dizer ao seu público que suas ideias são suficientes para explicar o mundo caótico que se apresentou aos brasileiros nos últimos anos. Não são. E, na verdade, é até interessante que não sejam.

Talvez por isso ele não deixe de lado sua faceta mais brincalhona e escreva cartas maliciosas, como a que fez para se despedir do facebook como parceiro de aventuras ou a que se apresenta como Jesus e recrimina os pastores evangélicos, fala de carecas, pau-de-selfie, escracha a corrupção, relembra carnavais inesquecíveis, zomba dos haters da internet, cria neologismos engraçadíssimos, malha as redes sociais como o movimento que elas se pretendem e que nunca se concretiza, polemiza ao ratificar em texto o quiproquó gerado por uma foto sua postada nos tablóides e na internet, onde porta um baseado. No geral, anarquiza o próprio gênero, fugindo do óbvio, dos vernáculos rebuscados e da linguagem acadêmica por vezes cansativa.

Muitos dirão que Caviar é uma ova em nada acrescenta para a cultura literária brasileira. Dirão mais: que é a grande perda de tempo editorial do ano. Provavelmente fazem parte do mesmo grupo de quem ele debocha em suas quase 200 páginas. Contudo, seu legado - pelo menos, para mim - é muito maior do que pode supor qualquer vã filosofia. Trata-se de um livro para repensarmos o que andamos chamando de livro nos últimos anos (auto-ajuda? livros de colorir? manuais do mundo corporativista? livros de listas? não, meu Deus, não!!!).

E levando-se em consideração o nível de alienação e de falta de instrução em que o Brasil se encontra desde que eu me entendo por gente, isso é muito mais interessante do que aquilo que muitos best-sellers bobalhões e pesquisadores de institutos renomados, trancados em suas "cidadelas particulares" andam fazendo por aí.

Portanto, meus caros amigos e leitores, leiam o livro. Dêem uma chance a esse "pobre bem nascido" que decidiu ir na contramão e debochar de um sistema covarde e opaco como esse nosso, que adora se fingir de democrático. Acreditem: vocês vão se surpreender!

 

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