Spinoza e a educação transformadora

  • 10/12/2016
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É extremamente desafiador apresentar o conhecimento conforme concebido por Benedictus (Baruch[1]) Spinoza que expôs toda sua capacidade de ser transformador e libertador particularmente através da educação

 

É extremamente desafiador apresentar o conhecimento conforme concebido por Benedictus (Baruch[1]) Spinoza que expôs toda sua capacidade de ser transformador e libertador particularmente através da educação.

 

Spinoza não pareceu estar preocupado em enfocar diretamente sobre a relação entre a filosofia e a educação, porém, atribuiu grande importância ao saber, ao conhecimento reconhecendo ser este o único meio que permite o homem alcance a liberdade.

 

O primeiro estudo sobre a relação do pensamento de Spinoza e a educação fora realizado por William Rabenort que foi publicado em 1911, em sua obra chamada “Spinoza as Educator” (Spinoza como educador).

 

Spinoza defendia que o homem tivesse liberdade de pensar e, ele mesmo, querendo não comprometer a sua liberdade, recusou-se a ser professor na Universidade de Heidelberg, o que denota seu pensamento sobre um direito primordial do indivíduo: a liberdade de filosofar.

 

Presume-se que Spinoza entendeu que o professor não deve estar condicionado a ensinar aquilo que lhe é proposto pelas instituições educacionais, pela religião dominante ou mesmo pelo Estado. Um professor assim como qualquer indivíduo deve guiar-se pela razão e deve ter como garantia o direito à liberdade de pensamento.

 

É verdade que Spinoza[2] é de família judia e seu pensamento fora influenciado por diversos fatores históricos, sociais, políticos e econômicos ligados a sua origem. A família de Spinoza é de origem espanhola e, no final do século XV, em face da enorme repressão converteram-se ao cristianismo e, sua família então, mudou-se para Portugal quando se torna cristã nova, permanecendo em terras lusitanas até o século XVI.

 

O pai de Spinoza saiu de Portugal e, fora atraído pela prosperidade da Holanda e também pela tolerância religiosa, estabelecendo-se em Amsterdã, onde então nascera Spinoza em 24 de novembro de 1632.

 

O convívio com idiomas como o português, o espanhol e o uso oral do holandês fez dele um poliglota. Tornou-se bastante instruído e conhecedor de diversos idiomas além das línguas tais como latim, grego e o italiano.

 

Ainda na infância acompanhou todo o processo de excomunhão e humilhação e, depois, o suicídio de Uriel da Costa, um judeu formado em Direito e em Filosofia em Portugal, tendo ido para Holanda na tentativa de poder praticar livremente o judaísmo.

 

A perseguição de Uriel da Costa[3] se deu em virtude de suas duras críticas aos talmudistas ortodoxos, defensores da Lei Oral. Estes, por sua vez, disputavam o poder com os racionalistas heterodoxos, defensores da interpretação da Lei Escrita[4].

 

Spinoza que testemunhou a punições de outros judeus e filósofos que por fazerem uso da liberdade de pensamento, chegaram mesmo a vivenciar a tragédia de ser excomungado[5] da comunidade judaica de Amsterdã e tendo inclusive sofrido o atentado a faca na saída do teatro, o que acarretou sua saída da cidade por sentir gravemente o peso da pressão de seu tempo.

 

Então Spinoza passou a viver como polidor de lentes[6], mas manteve constante comunicação com os amigos através das cartas, por onde eram enviadas as dúvidas e questionamentos que claramente denotam o caráter pedagógico de Spinoza. Compartilhou seu conhecimento, o que comprovava o seu apreço à erudição, ao conhecimento e, principalmente, à educação.

 

Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos, acometido por tuberculose, falecendo em Haia em 1677, deixou imensa contribuição filosófica com obras elaboradas com dedicação, coesão e originalidade.

 

Karl Marx, jovem ainda, foi leitor contumaz de Spinoza e, através dele, entendeu melhor a teologia em sua acepção política. A partir do século XX o seu pensamento foi ciosamente estudado por pensadores como Martial Gueroult, Gilles Deleuze[7], Alexandre Matheron[8] e, atualmente outros saberes, debruçam-se sobre os chamados “elementos para pensar o mundo contemporâneo”.

 

Pode-se resumidamente afirmar que sobre o cartesianismo historicamente deu origem a duas importantes correntes filosóficas, a saber: o racionalismo[9] e o empirismo[10].

 

O filósofo seria enquadrado entre os racionalistas, juntamente com Malebranche e Leibniz, apesar de que Spinoza não tenha privilegiado a mente em detrimento do corpo, mas trata-os em patamar de igualdade.

 

René Descartes[11], em sua obra “Discurso sobre o Método” afirmou que todo homem possui a capacidade de raciocinar, mas nem todos fazem uso dessa capacidade da forma correta. Descartes veio então, a traçar um método seguro para que haja o uso apropriado dessa capacidade.

 

Spinoza e Descartes compartilhavam da mesma opinião sobre a ordem geométrica, constatando ser essa ordem, a mais conveniente para a pesquisa e para o ensino da verdade, porém divergia quanto ao modo que utilizavam essa ordem, onde Spinoza defendia ser mais adequado o modo sintético[12] enquanto que Descartes defendia o modo analítico.

 

Em sua obra sobre a Ética, Spinoza utilizou o método sintético que vem a ser a construção do complexo a partir do simples. Assim, começa de Deus para chegar ao homem. Spinoza seguiu o modelo de um tratado de geometria, começando por definições e axiomas, para depois chegar a expor as proposições que são seguidas por demonstrações e, estas, por sua vez, seguidas por corolários[13] naturais.

 

Diferentemente do que fez Descartes que adotou o método analítico e, em sua obra intitulada de “As Meditações Metafísicas”, ele parte da dúvida para alcançar a certeza, mas, já tem como premissa principal que Deus existe, dentre outras questões.

 

Descartes partiu do efeito para chegar até a causa, o método tem caráter educativo tendo sido apto a justificar a elaboração dos Princípios da Filosofia que fora enviados por carta enviada para Mersenne em 1640, o método mais apropriado para o ensino.

 

Na obra “Tratado da Reforma do Intelecto[14]”, Spinoza abordou o método para se atingir a perfeição. Começava por separar as ideias verdadeiras das ideias falsas e, se fazia uso apenas das verdadeiras, afastando-se das falsas.

 

Enfim, Spinoza divorciava a imaginação da razão. Afinal conhecer para Spinoza é conhecer a causa. Conhecer pela causa é também a forma da alegria[15], assim, trata-se de descobrir algo como este é produzido, é, portanto um processo genético.

 

Spinoza foi considerado grande estudioso da filosofia de Descartes, tendo publicado em 1662 a obra intitulada “Princípios da Filosofia Cartesiana”. Embora Spinoza não tenha demonstrado ser eu principal foco a educação a carta 21[16] que ele escreve a Blyenbergh, em 1665, inicia já informando que as opiniões deles são contrárias e que a troca de cartas entre eles, não servirá para que se instruam Conclui-se que as cartas possuem um papel educativo vindo a firmar fundamentos.

 

Spinoza criticava as escolas e as universidades custeadas pelo Estado, pois temia a manipulação e a falta de liberdade.

 

O verbo que Spinoza utilizou-se para significar entravar (o conhecimento) foi coercere que também foi utilizado na obra Ética[17], quando se refere ao efeito da paixão, o de diminuir a potência. Mencionou: “Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou entravada e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções”.

 

Percebeu Spinoza que a academia era mantida para inserir em seus freqüentadores a ciência adaptada aos ideias meramente religiosos, constituindo assim, não um homem livre, mas um seguidor da fé, um mero correlegionário.

 

A sua crítica não era à educação em si, tendo efetivamente defendido o cultivo das ciências e das artes, afirmando que isso seria a forma mais adequada para fundar uma república livre (que apresentou no último capítulo do Tratado Teológico-político[18]) e, ainda, afirmou ser a república democrática é a que mais se aproximava da natureza do homem.

 

Tal república deve permitir que cada um tenha o direito de ensinar publicamente. Quanto à liberdade de expressão que foi cerceada antes de Spinoza e, mesmo em seu tempo, onde vários pensadores e intelectuais foram proibidos de expor suas ideais publicamente sendo considerados como um risco â paz e à sociedade.

 

O aprendizado daquilo que constitui o homem e que o afeta, guia o homem para singrar a passagem da servidão para a liberdade. O aprender que instiga o uso da razão edifica e liberta, não devendo ser um transmissor de modelos, mas propriamente um fomentador da reflexão.

 

Na Ética de Spinoza se propôs a apontar a importância do conhecimento para o homem, do aprender sobre Deus, sobre si e sobre as coisas.

 

A obra[19] em referência acerca da Ética é dividida em cinco partes, onde a primeira parte descreve Deus ou a Natureza; na segunda parte cogitou da origem e da natureza da mental, que é a ideia de corpo; e a terceira parte apresentou teoria dos afetos e, por derradeiro, a teoria sobre a liberdade humana.

 

Conhecimento para Spinoza é saber é a maneira de conhecer. A mente[20] é o próprio pensar. Há três gêneros de conhecimento: opinião ou imaginação, razão e ciência intuitiva. Afirmou que não se chega à ciência intuitiva sem passar pelos dois primeiros gêneros.

 

O primeiro (a opinião ou a imaginação) é o conhecimento inadequado que é a parte da constituição do homem do seu modo finito. A razão e a ciência intuitiva são conhecimentos verdadeiros. Spinoza afirmou que a própria essência do um sincero esforço para sua transformação e preservação que se dá através da imaginação como pela razão (com ideias adequadas).

 

Para Spinoza, o homem não busca o conhecimento racional motivado pela curiosidade, mas para ser feliz, para preservar seu próprio ser.

 

A Ética dá imenso valor ao conhecimento e projeto desta, segundo Sévérac[21], é propor uma ética do conhecimento que naturalmente distingue de uma moral da obediência.

 

Os homens precisam conhecer seus afetos como parte do caminho para alcançar dentre os três tipos de conhecimento, o mais alto deles: a ciência intuitiva.

 

Todos os afetos derivam de três modos de conhecimento, segundo Spinoza afirmou no Breve Tratado: 1. a opinião, de onde se originam os afetos contrários à razão, como o ódio, a aversão, dentro outros; 2. a crença correta, de onde nascem os afetos bons, como a nobreza e a humildade; 3.conhecimento claro, de onde surge o amor de Deus, puro e verdadeiro.

 

As ações de mente surgem das ideias adequadas, enquanto as paixões dependem das inadequadas. O entendimento verdadeiro ou adequado é o entendimento das causas, ou seja, quando a mente aprende suas causas ou de suas ideias.

 

Spinoza referiu-se ao conhecimento inadequado como imaginação, já que através desta, formando-se ideias confusas. Há o uso da imaginação quando as ideias inadequadas não incluem suas causas não imediatas. A partir do primeiro gênero do conhecimento não é possível distinguir o verdadeiro.

A imaginação é a causa de falsidade, porém nem tudo é falsidade, o que denota que esta não tem que ser necessariamente, uma fonte de erro.

 

Imaginação e verdade não se excluem necessariamente e, podem até mesmo existirem simultaneamente, apesar das limitações da imaginação.

 

As três afecções primárias ou primitivas reconhecidas por Spinoza são a alegria (conatus aumentado), a tristeza (conatus diminuído) e o desejo (conatus). Afirma que a partir dessas afecções nascem todas as demais. Uma coisa qualquer pode causar acidentalmente, a alegria, a tristeza ou o desejo.

 

Spinoza definiu a tristeza[22] como “a passagem do homem de uma perfeição maior para um menor”. A tristeza é o ato é ação do homem diminuída assim é uma paixão pela qual a mente passa para uma perfeição menor.

 

Spinoza chamou a afecção tristeza de dor ou melancolia. Há outras afecções de tristeza, como: medo, desespero, remorso, humildade, arrependimento, pudor dentre outras.

 

Tal qual Nietzsche, Spinoza não aprovava a humildade, pois acreditava que advinha da contemplação da própria fraqueza.

 

Deus está isento da tristeza e da alegria e não pode passar a uma perfeição maior ou menor, pois é isento e imune de paixões. O conatus humano só pode ser afetado negativamente por causas externas.

 

A afeccção ou afeto é uma relação de corpos, sendo através da potência de agir desse corpo que é majorada ou reduzida. É essencial para que exista a afecção dois corpos.

 

Já o afeto é a variação da força de agir, é a variação do conatus. A origem da tristeza observou Spinoza é sempre uma causa externa ou exterior, nunca vindo de dentro. Pois o ser reforça-se continuamente para a preservação do ser.

 

A hilaridade corresponde ao aumento do conatus enquanto que a melancolia corresponde à redução do conatus.  As paixões são necessárias, mas Spinoza sugeriu que, de posse de conhecimento sobre as leis da natureza humana, nos deixemos vencer. Somente por paixões positivas. Não há nada, na essência humana que possa provocar a sua destruição.

 

O cidadão exemplar seria dominado pela razão. É um homem livre, e não um servo. Spinoza defendeu o papel do homem enquanto educador, quando afirmou que o homem que se conduz pela razão conserva o seu ser e, usufrui de uma vida racional.

 

Não pretendeu que o homem aniquile as paixões posto que sejam necessárias; mas recomenda a posse do conhecimento das leis da natureza humana para atingirmos as paixões positivas e evitarmos as paixões negativas.

 

A melhor maneira de homem provar o valor de seu engenho e arte é educando aos demais para viverem conduzidos pela razão. O homem não nasce livre, pois atinge a liberdade gradualmente. Livre realmente, para Spinoza somente Deus. Liberdade é o agir e não sofrer a ação.

 

Assim cogitou da definição de liberdade, in litteris: “Diz-se livre a coisa que existe exclusivamente é determinada a agir. E diz-se necessária, ou melhor, coagida, aquela coisa que é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada”.

 

Cogitou Spinoza sobre o caminho que leva o homem à liberdade. Foi por defender tanto a liberdade que representa uma ameaça para o poderio dominador religioso, fora considerado herege.

 

Humberto Mariotti[23] ressaltou que a heresia de Spinoza constitui em afirmar que os humanos podem, por meio da razão, conhecer a realidade em seu todo. E, com isso, podem alcançar a liberdade e construir um mundo melhor, livre de deuses autoritários e legisferantes.

 

Através do aprendizado é possível a conversão da servidão à liberdade, a partir do ser humano e do que o afeto. Destacou o filósofo sobre a dificuldade de se trilhar o caminho da liberdade, reconhecendo o caminho árduo e raro, mas que não deve ser negligenciado.

 

Reafirma a máxima socrática da importância de conhecer a si mesmo, a Deus e as coisas. Defendeu Spinoza que a virtude é conhecer a Deus que só é possível ao homem quando pela razão, o que não o livra de ser afetado pelas paixões já que o humano é parte da natureza, sendo afetado e afetante.

 

De posse da educação, do conhecimento, o homem livra-se do medo e, alcança a liberdade. O ignorante rejeita tudo aquilo que não conhece, não porque seja ruim, mas porque se acomoda em seu desconhecimento, com suas ideias inadequadas, parecendo-lhe mais fácil, julgar como ruim o que desconhece.

A valorização da educação, do conhecimento e da razão leva o homem ao distanciamento da ignorância e, produz a aproximação da liberdade, tendo a potência da razão, um poder em que face aos afetos. Aquele que detêm o conhecimento é mais potente que aquele que não tem.

 

O homem, por ser movido sempre por uma finalidade, acredita que a Natureza também o é, o que segundo Spinoza é um equívoco e se estivesse de posse (do conhecimento adequado), sabedoria que Deus age por sua infinita potência e não pela liberdade de sua vontade, não por uma finalidade.

 

A educação não estabelece uma finalidade para o homem ou é esta a própria finalidade, mas é determinante para um viver feliz.

De fato é surpreendente verificar que na história da educação e da pedagogia, percebe-se falta de referência ao pensamento de Spinoza.

 

No entanto, nos deparamos em escritos de Spinoza as mesmas preocupações pedagógicas similares as contemporâneas tais as de Comênico[24] e de Johannes Clauberg[25].

 

O componente pedagógico de Spinoza é inerente à concepção ética de Spinoza, cuja brevidade de sue vida ceifou de maior aprofundamento.

 

O sistema de Spinoza indica princípios pedagógicos cuja relevância vai além da prática pedagógica através de sua fervorosa lavra epistolar e também através de seus tratados sobre política que aponta como constituir-se uma pedagogia da liberdade.

 

Os princípios pedagógicos decorrem do entendimento humano e sobre a inteligibilidade da natureza como percurso afetivo que foi por ele seguido na aquisição da ideia verdadeira.

 

Os princípios pedagógicos nos conduzem à construção do conhecimento e, viabilizar retirar lições de todo tipo de situações, sejam essas conveniências rotineiras ou de problemas decisivos que aparecem na encruzilhada de paradoxos.

 

Ao declinar do convite para lecionar na Universidade Heidelberg, Spinoza confirmou a preferência por produzir a filosofia, ao invés, de assumira tarefa de transmiti-la como docente.

 

Um princípio essencial preside a elaboração do método por adicionar delimitação e, preparar o homem para a felicidade através conhecimento e união harmoniosa com a natureza.

 

O conhecimento pretendido exige esforço e persistência conforme sentenciou no final da Ética: “tudo o que é excelente é tão difícil como raro.”

 

Enfim, a atividade educativa fica situada do lado do trabalho, do esforço empenhado e combativo a empreender, tanto pelo educando como pelo educador.

 

Spinoza rejeitou e refutou as explicações do mundo com base no finalismo ou no idealismo tão presente nos tempos medievais, modernos e contemporâneos.

 

As causas finais não passam de ficções sobre a realidade, nem mesmo as ações humanas se explicam por causas finais, mas apenas por causas suficientes e eficientes que articulam as coisas singulares.

 

Não existe plano divino, nem decretos de providência, sistema moral, ordem supra-rela e nenhum modelo de dever-ser que possa ser explicado sobre o plano de ser, que é o da imanência absoluta.

 

Trata-se de um engodo teórico ou metafísico, o chamado mundo das causas finais; tudo se resume em ser instrumento para submeter o homem à obediência e ao controle, tentando provar-lhe que é menos livre do que pode ser, e, assim, querendo que seja menos homem do que é.

 

Enquanto Goethe propôs que nos tornemos o que somos, o finalismo pretende efetivamente que deixemos de ser. A lei moral tem como único objetivo a obediência. A ética propugna por um modus vivendi enquanto que a ética de Spinoza propôs a vida da potência.

 

A lei moral, no fundo, interdita o verdadeiro conhecimento, porque sabe nocivo à manutenção e prosperidade da ordem autoritária. Assim, o plano das causas eficientes da Spinoza não pode ser o da moral, da culpa, das punições e das leis, mas sim, o plano do apetite e do desejo.

 

Enquanto os finalismos afirmam que é preciso ter menos apetites e reprimir os desejos, isto é, ser menos homem, numa vida casta de moderações e privações para que se possa um dia chegar a Deus, o que significa chegar ao Bem, ao Justo e ao Belo.

A filosofia de Spinoza informa o contrário, quanto mais se é homem, quanto maior o apetite que desenvolvemos, seremos divinos, quando conseguirmos combinar nossos desejos com aqueles que nos convêm.

 

A ontologia da liberdade pregada por Spinoza nos liberta do Deus Moral, o criador transcendente e põe fim a história de longo erro. Segundo Spinoza não se é mais divino sendo menos homem, mas quando este atinge a plenitude.

 

Se entendermos por direito[26] natural o que o homem pode num estado de não-coação e se constitui do próprio homem. Sempre foi este homem, aqui e agora. Quando se efetiva a causa eficiente, esta não desaparece, mas continua imanente, essentia actuosa[27] que é o sentido da potência em Spinoza.

 

No que se refere à causa transitiva que se dá e some, assim como o potestas (ou seja, a autoridade instituída ou o poder titularizado. Na hipotética passagem do direito natural para o direito civil, conclui-se que se a essência humana permanece atuante.

De forma que o único direito social que convenha ao homem, que aumenta a sua potência de existir, o que o torna alegre, que é um direito natural comum.

 

O direito natural resguarda integralmente a essência humana, ou seja, tudo o que ele pode, o que corresponderia ao infinito de Giordano Bruno. Afinal, a relação o direito natural e o direito comum é a mesma relação entre a essência humana e sua plena expansão no bojo das relações sociais,ou seja, na travessia do finito ao infinito.

Porque, a potência de existir somente de desdobramento com os bons encontros, nos quais o homem se orquestrara com aqueles outros ou aquelas coisas que lhe convêm a apetecem que com ele compõem novas relações e deveres.

 

Portanto, no direito comum, as relações sociais não se baseiam num soberano legislador que, impõe de cima para baixo e de fora para dentro como Deus pessoal dos cristãos (que determina o que é certo ou errado) punindo o pecado e retificando o pecador.

Ao revés, no direito comum, as relações sociais se autovalorizam conforme a máxima potência, com o estreitamente da teia de afetos ativos que no conjunto, convirjam para o máximo de si, no limite do infinito. A auto-organização do processo só pode dar-se por uma lógica interna, que é, precisamente a liberdade, de agir segundo a natureza. É quando a essência se funde à potência e, escapa de qualquer essencialismo metafísico.

 

Um pungente questionamento se impõe: Como proteger os fracos dos fortes? Como instituir e manter o equilíbrio da malha social?

Para Hobbes em resposta indicou: somente um soberano acima e fora que transcende o sistema. Porém, essa não é a resposta de Spinoza posto que seja inaceitável um soberano ativo diante de súditos passivos, ditando uma ordem moral cujo desrespeito temor lógica a consequente punição, suprimindo a conflitividade que é inerente a vida cotidiana e humana. “Ainda que o soberano seja vestido com o normativismo da democracia constitucional de modelo ocidental”.

A democracia ortodoxa defendida pela ética de Spinoza demanda a total dissolução completa do soberano no meio social. O estabelecimento de uma ordem jurídico-moral pelo soberano que induz à proteção dos fracos proprietários e dominantes contra os fortes escravizados e despossuídos.

 

E não pode haver direito novo que se restrinja a torcer o bastão para o outro lado, o esquerdo. Tais tentativas pseudorevolucionárias substituem a classe dos fracos dominantes por outra classe num eterno retorno do mesmo tão bem expresso na cosmogonia orwelliana[28]. É preciso romper o bastão.

A democracia ortodoxa opera a defesa dos fortes contra os fracos, colocando ponto final nas paixões tristes[29], e nos sacerdotes que as manipulam. Se o tirano está acarretando o medo e tristeza nos homens, os sacerdotes laicos da ordem constituída aproveitam-se e exploram-lhe os afetos, preservando seu quinhão de poder e propriedade.

 

A democracia radical aproxima-se quando a organização social orienta-se pela ética da potência. Atualmente pode ser entendido na formação e na valoração de redes imanentes de comunicação, interação, produção de sentidos, afetos, amores e apetites.

 

Bem distante das anarquias românticas e também das utopias, tratou-se de pensar e fazer agir um direito comum que estabeleça o desejo do homem, de relacionar-se, compartilhar, expandir-se e multiplicar os mundos (princípio interno de funcionamento).

 

Contra o encadeamento de afetos passivos (a tristeza, o ódio, a indignação, a inveja e a vergonha) reage o homem de ação, o cidadão virtuoso e corajoso no sentido pleno e máximo.

 

Os problemas práticos da democracia radical são: como atingir o máximo de afetos ativos, como formar o máximo de ideias adequadas ao empoderamento de todos, como chegar a ser consciente em si mesmo, de tudo o que podemos, ou seja, de Deus e das coisas.

 

A política consiste na organização de afetos visando à produção máxima de desejo e amor (a essência divina do homem) e se concretiza mediante a arte de bons encontros.

 

Percebe-se que a liberdade absoluta de Spinoza não é ausência de constrangimentos externos ou internos, mas a potência interna, a efetividade do corpo político, tanto mais forte quanto mais o homem for instigado, motivado e relacionado com os demais e para os demais, com o mundo e para o mundo.

A liberdade[30] de Spinoza nada tem a ver com a vontade tomada como voluntas de escolher isto ou aquilo, de poder fazer e poder não fazer e, muito menos, como vontade disciplinada por limites impostos coativamente de fora ou aceitos racionalmente de dentro.

 

Não se trata de uma vontade determinar-se na existência por um modelo ideal, seja qual for o processo de seu estabelecimento comunicativo, consensual, contratual ou natural.

 

O homem afirmou Spinoza, o mais potente dos modos finitos, é livre quando extravasa a sua potência de existir, quando seu desejo determina-se pelas ideais adequadas, ou seja, conhecimento que explica o caminho da potência, dos bons encontros, da combinação de desejos e apetites num mundo compartilhado e sempre em renovação.

 

O homem mais livre e mais forte define-se pela coragem e a virtude: capacidade de doar o pensamento e o corpo a tudo o que eles podem a sua essência-potência, à revelia e ultrapassando coações e ameaças exteriores, culpas e egoísmos interiores.

 

Desta forma, se combina somente com aquilo que para ele, o faz enredar-se e, vibrar com outros e com outras coisas.

 

Spinoza escreveu o Tratado da Reforma do Entendimento onde a busca do prazer e das honras trazia maiores males do que bem e que todos os males da humanidade derivavam da busca destes bens.

Spinoza passou a inquirir se o verdadeiro bem, uma vez encontrado e adquirido, proporcionasse a fruição eterna da suprema e contínua alegria. Eis a base intelectual sobre a qual o pensador pautaria toda a sua vida prática e intelectual.

Já na obra Ética (...) Spinoza nos fornece uma visão do conceito de Deus, único em toda a filosofia ocidental. Diferentemente de Descartes e outros autores, Spinoza não se propõe a provar a existência de Deus.

 

Trouxe a Ética em sua parte I a seguinte preciosa definição, in litteris: “Entendo por causa de si aquilo cuja essência implica a existência; ou, em outras palavras, aquilo cuja natureza, não pode ser concebida senão como existente”.

 

Isto cuja existência é evidente é a substância. Enquanto que Descartes defendia a existência de diversas substâncias, para Spinoza, só existiria uma única substância cuja existência é evidente aos sentidos. Ainda arrematou: “Entendo por substância aos sentidos: o que é em si e se concebe por si: isto é, aquilo cujo conceito não tem necessidade de outra coisa, do qual deve ser formado”.

 

A substância é Deus conforme Spinoza especifica na parte I da Ética: “Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, ou seja, uma substância constituída por uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita.”.

 

 Afirmou Spinoza que a substância é necessariamente existente e, por isso, infinita. Deus é a necessidade absoluta e dele procedem os infinitos atributos (o que se afirma ou se nega do sujeito e infinitos modos (forma de ser) de que é formado.

 

O mundo é a consequência necessária de Deus, e, existem pois, duas maneiras de ser: a da substância e a de seus atributos[31] e a das manifestações da substância.

Deus demonstrou Spinoza, não é causa existente transitiva de todas as coisas ou de todos os seus modos, ou seja, não é uma causa que se separa dos efeitos após Havê-los produzido, mas é causa eficiente imanente de seus modos, não se separa deles e, sim, se exprime neles e eles o exprimem.

Isto significa que somos formas de Deus e que todo o universo é a forma de Deus. Deus não se limita ao universo material que conhecemos, já que Spinoza cogitou em infinitos modos.

Sublinhe-se a influência de Giordano Bruno sobre o pensamento de Spinoza, no conceito de mundos infinitos, ressaltando também a influência do pensador alemão Wilhelm Dilthey, porém negada por outros pensadores.

 

Spinoza foi classificado como filósofo ateu por conta de identificar Deus (ou a substância) à matéria, ou pelo menos foi taxado de monista[32].

 

Importante recordar que Spinoza distinguiu três formas de conhecimento, a saber: empírico (ligado as percepções sensoriais); b) conhecimento segundo o ratio (razão) representado pelas ciências; c) conhecimento da ciência intuitiva (que é a visão das coisas na visão do próprio Deus).

 

Infelizmente ressaltou Spinoza que as coisas não são conforme são apresentadas pela imaginação. As coisas são conforme o conhecimento empírico e são apresentadas pela razão.

A análise do mundo com a razão se traduz como a manifestação da substância eterna e infinita (conforme a definição da parte I da Ética) e, portanto, necessário.

 

Considerar o mundo necessário (não podendo não existir), significa considerá-lo subespécie aeternitatis (sob certa espécie de eternidade).

 

Da mesma forma, se o mundo e tudo que existe é nec3essário, não há lugar uma vontade livre, há uma vontade não-condicionada. Qualquer vontade é determinada por fatores conhecidos ou desconhecidos que por sua vez, são determinados por outros fatores até um determinado ponto da sequência à vontade ou a mente não tenha mais controle sobre estes fatores.

 

A vontade é determinada, em última instância, por fatores que desconhecemos e sobre as quais não temos controle. Portanto, para Spinoza a vontade não é livre e, tal noção fora retomada mais tarde por outros pensadores tais como Schopenhauer e Nietzsche que igualmente negam a existência do livre arbítrio[33].

 

Como consequência deste raciocínio, Spinoza deduziu que agimos necessariamente pela vontade de Deus (ou pela vontade de impulsos da matéria). A partir deste pressuposto por corolário, de sorte que Spinoza infere toda ética baseada na vontade, na compreensão dos obstáculos da vida; separando aquilo que podemos mudar daquilo que não podemos. Toda essa ética é baseada na constatação que tudo que ocorre, acontece de maneira predeterminada.

 

As paixões, conforme afirmou Spinoza, não são o resultado da fraqueza humana, da fraqueza da vontade (que não é livre), mas o resultado da potência da natureza.

 

Para Spinoza, as paixões não devem ser condenadas, mas explicadas e compreendidas. É bastante significativa a semelhança desta ideias e análises feitas, pois depois de trezentos anos depois foram feitas e redimensionadas por Sigmund Freud[34].

 

A respeito da agressividade, o psicanalista Betty Fuks aduziu: “Na realidade, se ele próprio advogava o fato de que no homem, amor e ódio intensos convivem conflitantes (ambivalência de sentimentos) e, que as pulsões são aquilo que são, nem boas e nem más, dependendo do destino que seguem na história do sujeito e da civilização tinha de reconhecer que o mal, a destruição e a desumanização dos laços sociais não são apenas momentos efêmeros, fadados à superação no futuro”. Tais conclusões são muito semelhantes às conclusões de Spinoza sobre as paixões.

 

Afirmou Spinoza as paixões são uma tendência a permanecer no próprio ser, como se fosse um instinto de conservação, chamado por Spinoza como conatus.

 

Quando se referem à mente e, chama-se vontade, quando o corpo, denomina-se apetite. Ao que favorece positivamente ao conatus, Spinoza denominou como alegria.

 

Já a que atua negativamente ao conatus, Spinoza chamou de dor. E, comparando as paixões às forças da natureza, Spinoza constata que não temos controle sobre elas e uma é criada (prisão) leva à outra.

 

Segundo Spinoza, a ilusão de liberdade porque os homens são conscientes de suas ações e ignorantes pelas quais elas são determinadas.

 

Gilles Deleuze denominou o referido engano de ilusão psicológica da liberdade. O mundo não tem finalidade alguma (pelo menos que nós saibamos). A maneira de analisarmos os acontecimentos, a história, a natureza sempre de acordo com alguma finalidade, é próprio dos homens quando estes enxergam tudo sob a forma empírica do conhecimento.

 

Sob a ótica a subespécie aeternitas não há teleologia, alguma por trás das coisas: elas apenas são. Consequentemente também não existe o perfeito e o imperfeito, o bem e o mal.

 

Observa-se que tais conceitos são apenas comparações que o homem faz entre o objeto que produz e outros na natureza (quando na verdade é tudo parte da natureza). Da mesma forma, bem e mal não são coisas em si, mas modos de pensar, o bem sendo o que é útil e o mal, por exclusão, o que não é.

 

O homem que entende todas as coisas, acontecimentos e situações como procedentes de Deus[35] (como seus modos e atributos) sabe que estas são Deus e ele mesmo é Deus (ou está em Deus).

 

Spinoza retoma as raízes socráticas e estoicas, principalmente quando Spinoza afirmou que a verdadeira bem-aventurança não é o prêmio da virtude, mas a virtude em si.

 

Ensinou ainda Spinoza que os homens que são sujeitos às paixões e às iras, revelam-se inimigos uns dos outros por sua própria natureza. Ratificou Hobbes quando afirmou que homens constroem o Estado. Com o Estado, os homens podem viver, mais facilmente ao abrigo das intempéries e, em compensação relativiza a paz uns com outros.

 

Por essa razão, o regime ideal é a democracia onde todos possuem o mesmo direito e nenhum poderá oprimir o outro, já que a organização política tem como fim assegurar a liberdade de todos os membros.

São constatáveis (que Spinoza introduziu) muitas novas ideias na filosofia. Reduzindo a realidade à substância e eterna, chamando-a de Deus.

 

Spinoza transformou-se no mais célebre de todos monistas ateus. Porém, toda a metafísica[36] é falha e, a de Spinoza parte do pressuposto de que à realidade do mundo correspondem as nossas percepções.

 

Mais tarde, Immanuel Kant que o mundo é sempre um intermediação entre o que existe e, nossa percepção, não existindo uma realidade absoluta.

 

Mesmo assim, Spinoza acabou influenciando outros pensadores tais como Hegel, Marx e Nietzsche e, prosseguiu ainda em outros pensadores contemporâneos (entre estes, Pierre Lévy que é um dos pensadores principais para se compreender o mundo contemporâneo e particularmente a relação do comportamento humano e as novas tecnologias de informação).

  

Referências:

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

BUCHNER, Luiz. Força e Matéria. Lisboa: Livraria Chardron, de Lello e Irmão Ltda., 1926.

CHAUÍ, Marilena. Espinosa uma filosofia da liberdade. São Paulo: Editora Moderna, 1995.

DELBOS, Victor. O Espinosismo. São Paulo: Discurso Editorial, 2002.

DELEUZE, Gilles. Espinosa, filosofia prática. São Paulo: Editora Escuta, 2002.

DE PAULA, Marcos Ferreira. Alegria e Felicidade. A experiência do processo liberador em Espinosa. Disponível em: file:///C:/Users/Maria%20helena/Downloads/MARCOS_FERREIRA_DE_PAULA.pdf Acesso em 07.12.2016.

MOREAU, Joseph. Espinosa e Espinosismo. Lisboa: Edições 70, 1982.

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ROCHA, Claudio de Souza. Os fundamentos da Democracia em Benedictus de Spinoza. Disponível em: http://www.uece.br/cmaf/dmdocuments/2011_os_fundamentos_da_democracia.pdf Acesso em 06.12.2016).

 

SPINOZA, B. de. Ética demonstrada à maneira dos geômetras. São Paulo: Martin Claret, 2002.

SPINOZA, B. de Seleção de textos de Marilena Chauí. Traduções por Marilena Chauí et al. 3ª edição. São Paulo: Abril Cultural, ‘983 (Os Pensadores).

MIRANDA, Karine. Spinoza e o conhecimento como a educação pode ser transformadora e libertadora. Disponível em: http:// webcache.googlerisercontente.com/search? Q=cacje: atBckcczqj:seer.uece.be%.3F.journal%3DPRF%3Darticle%article%26ap%3Download%%  Acesso em 6.11.2016.

 

ABREU, Luís Machado de. O lugar de Pedagogia em Spinoza.

SPINOZA, B. de. Pensamentos metafísicos; Tratado de correção do intelecto. Tratado Político; Correspondência. Tradução: Marilena Chauí, Carlos Lopes de Mattos, Manuel de Castro. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção “Os Pensadores”).

SPINOZA, B. de. Ética: demonstrada dos geômetras. Tradução e notas Joaquim de Carvalho. São Paulo: Nova Cultural, 1989 (Coleção “Os Pensadores”, v.2).

CHAUÍ, Marilena. Espinoza: uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1995.

 

 [1] Baruch é nome próprio judaico usado desde os tempos bíblicos até os dias de hoje. Relaciona-se a Berakhá ou Brachá que corresponde ao nome dado às bênçãos no Judaísmo. Na cultura judaica, o nome Baruch é um dos mais tradicionais na escolha do nome hebraico que, em geral, possui uma relação com um ente querido já falecido ou até um amigo da família. Outra característica da escolha do nome Baruch é a combinação com a primeira letra do nome civil. Registram-se na Bíblia: Baruch benNeriah que foi escriba do profeta Jeremias; Baruch filho de Zabbai, um dos reconstrutores do Muro de Jerusalém; Baruch, filho de Col-Hozeh que era membro da Tribo de Judá que se estabeleceu em Jerusalém.

[2] Foi um profundo estudioso da Bíblia, do Talmude e de obras de judeus como Maimônides, Bem Gherson, Ibn Ezra, HasdaiCrescas, IbnGabirol, Moisés de Córdoba e outros. Também se dedicou ao estudo de Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro, Lucrécio e também de Giordano Bruno.  Ganhou notoriedade pelas suas posições opostas à superstição (a sua frase Deus sive natura, "Deus, ou seja, a Natureza" é um conceito filosófico, e não religioso), e ainda devido ao fato de a sua ética ter sido escrita sob a forma de postulados e definições, como se fosse um tratado de geometria.

[3] Uriel da Costa ou Acosta (1585-1640) foi filósofo judeu de nacionalidade portuguesa, descendente de judeus da Espanha. Nascido no Porto como nome de Gabriel da Costa Fiúza, sua família era judaica, mas tinha-se convertido ao catolicismo, conforme foi imposto pelo Rei Dom Manuel I. Uriel convenceu a sua família a regressar ao judaísmo e, então, tiveram que se mudar para Amsterdã.

Onde foram perseguidos pelas autoridades da sua comunidade judaica por causa das suas perspectivas filosóficas (tal como Spinoza) e acabaria se suicidar. Em seu livro Exemplar humanae vitae relatou a sua experiência como vítima da intolerância religiosa. Uriel foi uma das figuras do romance “Expulsão do Inferno” de autoria de Robert Menasse.

[4] Segundo a tradição judaica rabínica, a Torá escrita foi entregue por Deus para Moisés no Monte Sinai em conjunto com a Torá Oral, que seria o conjunto de ensinamentos e especificações de como cumprir os mandamentos da Torá escrita e que, originalmente foram transmitidos de maneira oral de geração a geração através dos sábios do povo no correr de mais de 3 300 anos e finalmente compiladas na Mishná e no Midrash no ano de 200 da Era comum. De acordo com o pensamento rabínico, não é possível estudar a Torá escrita sem antes estudar a Torá oral.

Os judeus caraítas e os judeus samaritanos, naturais da Síria e Palestina, recusam a Torá oral e, aceitam apenas os escritos da Torá como revelação divina. 

Os cristãos oficialmente também não aceitam a Torá oral, apesar de muitas tradições cristãs estarem baseadas na Torá oral falada na época de Cristo

O judaísmo se diferencia de todas as outras religiões pelo fato de não se ter originado de uma única pessoa.  Todas as outras começaram a partir de um indivíduo que, através de seus ensinamentos, arregimentava adeptos e convertidos. 

Apenas o judaísmo foi criado por D’us, ao reunir três milhões de pessoas no sopé do Monte Sinai, ocasião em que, pela primeira e única vez, revelou-se abertamente.

[5] Em 27 de julho de 1656, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdã puniu Spinoza com o chérem, o equivalente hebraico a excomunhão católica, pelos seus postulados sobre Deus em sua obra, pois defendeu que Deus é o mecanismo imanente da natureza e, a Bíblia, em obra metafórico-alegórica que não requer leitura racional e que não exprime a verdade sobre texto.

Conforme Will Durant, seu chérem pelos judeus de Amsterdã, tal como ocorrera com as atitudes que levaram à retratação e posterior suicídio de Uriel da Costa em 1647, fora como que um gesto de "gratidão" por parte dos judeus para com o povo holandês. Embora os pensamentos de da Costa não fossem totalmente estranhos para o judaísmo, vinham contra os pilares da crença cristã.

Os judeus, perseguidos por toda Europana época, especialmente pelos governos ibéricos e pelos governos luteranos alemães, haviam recebido abrigo, proteção e tolerância dos protestantes de inspiração  calvinista dos Países Baixos e, assim, não poderiam permitir, no seio de sua comunidade, um pensador tido como herege.

[6] Entre os anos 1654 a 1656, dirigiu os negócios de sua família, mas, em junho desse ano, foi acusado de heresia e excomungado, tendo que abandonar a comunidade judaica. Mudou-se então de cidade, passando a morar em Leyden e, mais tarde, em Haia, onde passou a viver de seu trabalho como polidor de lentes de telescópios e microscópios, tendo exercido tal ofício que aprendera ainda na sinagoga até o fim de sua vida. Há quem interprete tal fato de forma metafórica, entendendo que seu ofício até a morte foi aperfeiçoar e possibilitar melhor visão e compreensão dos fenômenos observados.

[7]Martial Gueroult (1891-1976) foi um filósofo e historiador notável pela análise das obras de autores modernos, em especial, as de Descartes. Ele integrou a École Normale Supérieure em 1912 e, é logo em seguida convocado ao serviço militar por três anos.

Gilles Deleuze (1925-1995) foi um filósofo francês. Para Deleuze, "a filosofia é criação de conceitos" (O que é a filosofia?), coisa da qual nunca se privou ("máquinas-desejantes", "corpo-sem-órgãos", "desterritorialização", "rizoma", "ritornelo" etc.), mas também nunca se prendeu a transformá-los em "verdades" a serem reproduzidas.

A sua filosofia vai de encontro à psicanálise, nomeadamente a freudiana, que aos seus olhos reduz o desejo ao complexo de Édipo (vide “O Antiédipo - Capitalismo e Esquizofrenia” escrito com Félix Guattari), à falta de algo. A sua filosofia é considerada como uma filosofia do desejo.

Com a crítica radical do complexo de Édipo, Deleuze consagrou uma parte de sua reflexão à esquizofrenia. Segundo ele, o processo esquizofrênico faz experimentar de modo direto as "máquinas-desejantes" e, é capaz de criar (e preencher) o "corpo-sem-órgãos".

Seu intuito sempre foi o de explorar as suas potencialidades, ao máximo. Em “Mil Platôs”, Deleuze e Guattari enfatizaram a necessidade de extrema prudência nos processos de experimentação, para que não se prendam a qualquer preceito moral.

Deleuze sempre advertiu quanto ao perigo de se tornar um "trapo" através de experimentações, que inicialmente poderiam ser positivas, mas que depois são regulamentadas por uma moral subjetiva: "a queda de um processo molecular em um buraco negro”.

Desde 1992, seus pulmões, afetados por um câncer, funcionavam com um terço da capacidade. Em 1995, só respirava com a ajuda de aparelhos.  Sem poder realizar seu trabalho, Deleuze atirou-se pela janela do seu apartamento em Paris, em 04 de novembro de 1995.  Seus seguidores consideraram seu suicídio coerente com sua vida e obra: "Para ele, o trabalho do homem era pensar e produzir novas formas de vida"

[8] Alexandre Matheron é um estudioso da obra de Spinoza. Ele foi um membro do Partido Comunista Francês desde que era um estudante até 1957 e, mesmo depois de 1964 a 1978. Ele é o irmão de Georges Matheron, criador da geoestatística.

[9] O racionalismo é corrente filosófica que iniciou com a definição de raciocínio como operação mental, discursiva e lógica que usa uma ou mais proposições para extrair conclusões, ou seja, se uma ou outra proposição for verdadeira, falsa ou provável.

Essa era a principal noção ao conjunto de doutrinas conhecidas tradicionalmente como racionalismo. É a base da Filosofia principalmente por priorizar a razão como o caminho para se alcançar a verdade. 

O racionalismo afirma que tudo o que existe tem uma causa inteligível, mesmo que essa causa não possa ser demonstrada empiricamente, tal como a causa da origem do universo. Privilegia-se a razão em detrimento da experiência do mundo sensível como meio de acesso ao conhecimento.

Considera a dedução, o método superior de investigação filosófica. René Descartes, Baruch Spinoza

 Gottfried Wilhelm Leibniz que introduziram o racionalismo na filosofia moderna. Hegel, por sua vez, identifica o racional com o real, supondo a total inteligibilidade deste último. As ideias de René Descartes influenciaram diversos pensadores, entre os quais se destacam o holandês Spinoza e o alemão Leibniz. 

Leibniz era filósofo, matemático e político. Desenvolveu o cálculo infinitesimal, utilizado até os dias de hoje.  Defendeu o racionalismo, afirmando - tal como Descartes - que algumas ideias e princípios existem em nós e são percebidos pelos sentidos, mas não provêm deles. Como exemplos de conhecimentos inatos, ele citava os conceitos da geometria, da lógica e da aritmética.

 [10] Empirismo corresponde a uma teoria do conhecimento que afirmou que o conhecimento vem apenas, ou principalmente, a partir da experiência sensorial. O método indutivo, por sua vez, afirma que a ciência como conhecimento só pode ser derivada a partir dos dados da experiência. Essa afirmação rigorosa e filosófica acerca da construção do conhecimento gera o problema da indução.

Empirismo, sob esse nome, surge na idade moderna como um fruto maduro de uma tendência filosófica que se desenvolve principalmente no Reino Unido desde a Idade Média. Muitas vezes, verifica-se em oposição ao chamado racionalismo, mais característico da filosofia continental.  Hoje a oposição empirismo-racionalismo, como a distinção entre o analítico-sintético, é geralmente entendida de forma contundente, como era nos tempos antigos, mas sim, uma ou outra posição devida às questões metodológicas heurísticas ou atitudes vitais, em vez de princípios filosóficos fundamentais.  Em relação ao problema dos universais, empiristas muitas vezes simpatizam com as críticas e continuam nominalistas conforme começou no final da Idade Média.

[11] René Descartes (11596-1596) foi filósofo, físico e matemático francês. Durante a Idade Moderna, foi também conhecido com Renatus Cartesius. Notabilizou-se principalmente por seu revolucionário trabalho na filosofia e na ciência, mas também obteve o reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria, gerando a chamada geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Foi uma das figuras-chave na Revolução Científica.

É considerado o fundador da filosofia moderna e o pai da matemática moderna, sendo um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Inspira até hoje contemporâneos e as várias gerações de filósofos.

[12] Mais do que uma mera opção ou um simples discordar das objeções de Descartes quanto à disposição sintética, estão implícitos nesta opção spinozista pela síntese as distinções existentes entre os dois sistemas. 

Dentre elas, podemos citar a dualidade substancial de Descartes e a substância única em Spinoza, a distinção existente entre os conceitos cartesiano e spinozista de entendimento finito e infinito, que dada à consideração inicial de Deus como causa imanente em Spinoza, ou como causa transcendente em Descartes, têm em cada um destes autores uma conotação particular.

Por sua vez, a consideração cartesiana de Deus como causa transcendente e a consideração spinozista de Deus como causa imanente, ocasiona a diferença na concepção do entendimento divino e humano na Filosofia de Descartes e de Spinoza.

Devido a esta diferença quanto à causalidade, o entendimento divino e o humano serão heterogêneos de uma forma especifica em cada um destes filósofos.

Donde, a distinção entre a natureza da causa do entendimento em Descartes e Spinoza terá como conseqüência a não aceitação por parte de Spinoza da heterogeneidade total entre o entendimento divino e humano. Esta especificidade resultará em Descartes na precedência do conhecimento do efeito sobre o conhecimento da causa; em Spinoza, ocorrerá justamente o contrário: a precedência do conhecimento da causa sobre o conhecimento do efeito,  ocasionando a recusa spinozista em utilizar o método analítico preconizado por Descartes.

[13] A ordem geométrica conforme traçada por Euclides, consiste em partir de definições evidentes por si mesmas, que não necessitam de demonstração, de axiomas que são proposições ou juízos que igualmente não precisam necessidade de demonstração, porém, diferenciam-se das definições porque têm uma maior abrangência de proposições que serão demonstradas a partir dos axiomas, das definições ou de proposições anteriormente demonstradas, acompanhadas por corolários e/ou escólios, que são consequências extraídas das proposições ou observações que possuem por finalidade explicitar o sentido das proposições antecedentes, esclarecendo o próprio sentido ou resolvendo alguma possível polêmica ocasionada por alguma objeção.

Tal ordem fora descrita por Spinoza em diversas passagens, cujo significado nos remete à forma alongada em que os temas foram tratados, o que consistiu basicamente num desenvolvimento discursivo dos assuntos sem economia de termos, de explicação ou de raciocínio, ou seja, os temas não seriam expostos de forma concisa ou breve. Semelhante às Regulae de Descartes, este desenvolvimento discursivo seria basicamente dedutivo e lógico, pois, como vimos, Trata-se de partir descobrindo como as ideias simples e as complexas se conectam entre si.

[14]Por atributo entendo que o intelecto percebe a substância como constituindo a essência dela. Spinoza fez distinção entre as qualidades de Deus ou propriedades divinas ou atributos, reservando a estes últimos, uma significação substantiva e aos próprios uma significação qualificativa.

 [15] Na filosofia de Spinoza, a alegria e a felicidade são conceitos diferentes, Aliás, o conceito de afeto de alegria ou laetitia surgiu no início da parte III da Ética, quando o filósofo está analisando a origem e a natureza dos afetos. A ideia de felicidade ou felicitas só apareceu no final, na parte V, da obra Ética, onde o filosofo analisa a potência do intelecto ou a liberdade humana.

Conclui-se que a Ética de Spinoza é ontologia do necessário, que se pode deduzir uma ontologia da alegria. Por isso mesmo, que na experiência humana de afetos como processo libertador que leva à felicidade é determinado pela experiência da alegria.

[16]Essas foram as derradeiras linhas da carta 21 de Spinoza in litteris: Para que precisas de mais milagres?

"Para que tantas explicações?

Não me procures fora!

Não me acharás.

Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti."

Baruch Spinoza.

Trata de Deus segundo Spinoza, portanto Deus está dentro de nós, é a substância, está em tudo e em todos. Palavras muito pertinentes ao tempo contemporâneo.

[17]  A noção de Ética começa com a definição notum per se (ou não demonstrável) que não define nenhuma coisa e, sim, uma propriedade.

[18] No Tratado Teológico-Politico Spinoza afirma que o fim último do Estado é libertar cada indivíduo do medo, para que possa viver em segurança e preservar seu direito natural a existir e agir. Dessa forma, o mais violento dos Estados é aquele que nega aos indivíduos a liberdade de dizer e ensinar o que pensam.

O homem no estado civil renuncia ao direito de agir sobre sua própria lei, mas não o de raciocinar e julgar.  O Estado segundo Spinoza é uma construção natural, resultado da união de homens. Assim, o direito do soberano vem do direito natural, conduzido pelas partes ao todo. O direito natural não desaparece por completo com o surgimento do Estado.

Este tem como finalidade promover a paz; consequentemente, o melhor governo é aquele que no qual os homens vivem em concórdia e as leis são observadas sem violação. Da mesma forma, o Estado fundado na razão e por ela dirigido é o mais poderoso, pois depende de si próprio. Também o Estado mais livre é aquele no qual as leis se fundamentam na reta razão.

Dessa forma, o melhor Estado vive sob a razão, e os súditos lhe são obedientes pela vontade livre e não por coação.  (In: Rocha, Claudio de Souza. Os fundamentos da Democracia em Benedictus de Spinoza. Disponível em: http://www.uece.br/cmaf/dmdocuments/2011_os_fundamentos_da_democracia.pdf  Acesso em 06.12.2016).

[19]  No Apêndice da parte I da Ética, Spinoza nos apresenta a forma como a consciência acalma esta angústia, através da tripla ilusão, a saber: ilusão das causas finais (finalidade), ilusão dos decretos livres (liberdade) e ilusão teológica. Sobre estas, Deleuze afirma que “a consciência é apenas um sonho de olhos abertos”, lembrando-nos a seguinte passagem da Ética:

Assim, uma criancinha acredita apetecer livremente, o leite; um menino furioso, a vingança; e o intimidado, a fuga. Um homem embriagado também acredita que é pela livre decisão da sua mente que fala aquilo sobre o qual, mais tarde, já sóbrio, preferia ter calado. (EIII, P2, S).

[20]  A tabula rasa não teria atraído a Spinoza como adequada denominação para a mente por sua concepção da natureza da mente foi totalmente diferente. Não sabemos tudo. O conhecimento absoluto e eterno é contrário à natureza humana. Spinoza não enfatizou a distinção entre coisas possíveis e coisas contingentes

[21] Pascal Sévérac é professor doutor substituto da Université de Paris I e Diretor do Programa do Collège International de Philosophie. Afirmou in litteris: “Spinoza, de fato, na Ética, visa conduzir-nos, "como que pela mão, até a beatitude da mente, ou seja, a um afeto de amor divino, que nasce de a mente agir apreendendo as coisas mediante o mais alto gênero de conhecimento a ciência intuitiva". (In: Conhecimento e afetividade em Spinoza. Disponível em: http://www.martinsfontespaulista.com.br/anexos/produtos/capitulos/591740.pdf  Acesso em 07.12.2016).

[22] Tudo o que existe tem propensão a se manter existindo como o que é e essa é a essência dos seres em geral.  Nos homens esse instinto de conservação gera as emoções que são uma mistura desordenada das ideias.  A alegria e a tristeza são as principais emoções, a alegria conserva e a tristeza deprecia o ser.

O amor e o ódio ocorrem quando a alegria e a tristeza se ligam a algo externo ao sujeito.

[23] Humberto Mariotti, nascido no Brasil, iniciou sua carreira como médico e psicoterapeuta.

Na década de 1970, nos EUA, tomou contato pela primeira vez com a área de conhecimento chamada de ciências da complexidade que viria a se consolidar na década seguinte.  Humberto é hoje referência nacional e internacional.

No Brasil, foi o pioneiro na criação da disciplina gestão da complexidade, inicialmente para MBAs e agora ampliada para outras áreas. Além das atividades como pesquisador independente, terapeuta e autor, Humberto tem viajado pelo Brasil e exterior, onde vem realizando cursos,  palestras e seminários. Tem também uma extensa produção de livros, artigos e ensaios sobre o tema complexidade e correlatos (vide: http://www.humbertomariotti.com.br/

[24] Comênio foi filósofo tcheco que combateu o sistema medieval, defendeu o ensino de tudo para todos e foi o primeiro teórico a respeitar a inteligência e os sentimentos da criança. A Didática Magna de Comênico marcou o início da sistematização da pedagogia no Ocidente.

[25] Johannes Clauberg (1622-1665) foi teólogo e filósofo alemão. Foi também fundador e reitor da primeira Universidade de Duisburg, onde lecionou de 1655 a 1665. Ele é conhecido como dotado de escolástica cartesiana.

Foi um dos primeiros professores das novas doutrinas na Alemanha e comentador exato e metódico em seus escritos. Sua teoria de ligação entre a alma e o corpo é, em alguns aspectos análoga à de Malebranche, .

Sua visão em relação de Deus com as suas criaturas é realizada para configurar o panteísmo de Spinoza. Todas as criaturas existem somente através da energia criativa e contínua do Ser Divino, e não são mais independentes de sua vontade, do que são os nossos pensamentos independentes de nós, ou melhor, menos, pois existem pensamentos em si a força em cima de nós quer queiramos ou não.

[26] Sobre o direito, Spinoza afirma que existe no mundo um ordenamento essencial, e dele vem o direito natural que tem por origem Deus. O direito natural é para o filósofo as normas que dirigem a natureza.

As regras através das quais a natureza se ordena estendem-se até o limite do seu poder.  Se o homem seguir as leis da natureza, estará seguindo também as leis de Deus.

Se os homens seguirem as regras e ensinamentos recomendados pela razão, o direito natural irá se expressar através dessa razão, que é a natureza do homem.

Em sociedade o Estado é o detentor do poder e do direito, mas se o Estado seguir a razão que é própria de cada um dos indivíduos que o compõe ele também estará seguindo o direito natural. O Estado limita o poder dos indivíduos, mas não invalida o seu direito natural. O direito do Estado é limitado pelas leis da natureza.

[27] Partindo da consideração da potência de Deus como essentia actuosa, ou seja, de sua realidade ativa a partir da qual necessariamente são produzidos os modos enquanto efeitos imanentes de Deus, podemos dizer que nada na Natureza é contingente, e isso porque, conforme vimos, aquilo que existe na Natureza não é produzido, em Spinoza, pela vontade de Deus, mas por sua infinita potência ou essentia actuosa.

[28] George Orwell, nascido Eric Blair, inglês de origem indiana, autor do clássico da literatura política, 1984, faz uma versão fabulística da crítica ao socialismo totalitário como opção ao capitalismo. Como em 1984, na Animal Farm, Orwell é direto.

O enredo interessa apenas na medida em que leva o leitor a compreender que, não importa o sistema político, o problema está sempre no vazio do poder e na repetição das mesmas estruturas de exploração do trabalho. Mais que uma crítica a um sistema político, como muitos pensaram, Orwell critica um modo de produção que não sobrevive sem a espoliação da produção do trabalho e a subversão do valor do trabalho à ordem do capital.

[29] As paixões tristes como necessárias: inspirar paixões tristes é necessário ao exercício do poder.

E Spinoza diz, no “Tratado teológico-político”, que esse é o laço profundo entre o déspota e o sacerdote: eles têm necessidade da tristeza de seus súditos.  Eis que, vocês compreenderão com facilidade que ele não toma "tristeza" num sentido vago, ele toma "tristeza" no sentido rigoroso que ele soube lhe dar: a tristeza é o afeto considerado como envolvendo a diminuição da potência de agir. (Trecho de uma aula de Deleuze sobre as ideias, os afetos e afeccções em Spinoza.

[30] O livre-arbítrio existe no sentido de que o homem tem o poder de dizer a verdade, se ele quiser, mas não que ele tenha o poder de ser louco ou delirante.  A educação está em harmonia com o universo posto que não colida com outros fenômenos naturais, exceto enquanto tal oposição possa expressar a vontade Deus. Não poderá colidir com a vontade de Deus.

[31] Se os atributos não têm existência separada da existência, se eles são a substância ela mesma que se expressa através dele, se expressa através dele, eles devem ser concebidos por si mesmos, serem eternos e infinitos, ainda que em seu gênero, sejam infinitos, ainda que em seu gênero e não absolutamente como a substância.

[32] Referem-se ao monismo que é o nome dado as teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo, em metafísica ou a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou pluralismo que aponta a afirmação de realidades separadas.

A origem do monismo na filosofia ocidental remonta aos pré-socráticos, como Zenão de Eléia, Tales de Mileto, Parmênides. Spinoza é considerado monista por excelência, posto que defenda que se deve considerar a existência de uma única coisa, a substância, da qual tudo o mais são modos. Hegel defende um monismo semelhante dentro do contexto de absolutismo racionalista.

[33]Enfim, a escolha ocorreria sem causa. E a mente considera diversas possibilidades de ação e elege uma ou algumas como melhores enquanto que julga outras como piores. Mas, ainda que um curso de ação pareça ser melhor do que outros, há sempre a opção em negá-lo.

A física newtoniana fornece boa metáfora para o determinismo enquanto que para o indeterminismo, fornece a física quântica. Não é possível, com base no conhecimento das condições nas quais um elétron se encontra, determinar seu movimento.

Se ele foi para A e não para B, ou vice-versa, isso não se deve a motivo algum. Da mesma forma, não há nenhum motivo que leve João, ao invés de levantar-se, a dormir mais ou ainda a levantar-se, ele simplesmente quis assim e esse querer não obedece a nenhuma relação causal.

Para que o livre arbítrio seja possível, duas condições são necessárias, a saber: 1:que a ação humana possa ser explicada por meio de causas finais, que não seja, portanto, fruto do acaso; 2. que essas causas não determinem a ação.

Afinal negar o livre-arbítrio é como negar o movimento dos corpos, os argumentos de Zenão de Eléia estão aí há milênios. Ainda que não consigamos entender a liberdade da escolha humana, é mais razoável crer que seu funcionamento está além da capacidade de nossa razão (que é capaz de elucidar alguns pontos) do que afirmar que a inteligência humana e a realidade se encontram em total e irreparável contradição

[34]O nosso conhecimento é imperfeito e ao tratar de questões morais e valores como problemas humanos, Albert Einstein escreveu referindo-se a Spinoza, o grande filósofo holandês. Conforme escreveu Stuart Hampshire que era um filósofo inglês, Spinoza ampliou o pensamento de Descartes e Galileu, que diziam que a linguagem da natureza era a matemática.

Para Spinoza era necessária outra linguagem, a que descrevesse as atividades dos indivíduos. Com isso, trouxe a responsabilidade ética de volta para o homem. Cada coisa tenta, com os poderes que tem, preservar sua existência.

Não é por acaso que Spinoza muito influenciou Freud e também Lacan, mesmo quando Freud tenha mantido tal influência em segredo.  Aliás, conforme nos ensinou Spinoza, o indivíduo exerce sua liberdade através do uso da razão e da imaginação. E, as vezes o preço dessa liberdade, às vezes, seja a incompreensão dos que o cercam.

[35] Existe um panteísmo assumido por Spinoza e declarava que Deus como um único ser independente. Destacou o filósofo holandês que as coisas que Deus criou diferem dele, a saber: 1. Elas existem para além dele mesmo; 2. Elas têm qualidades que ele não possui; 3. Deus não faz parte de sua essência; 4. Coisas podem ser imaginadas, mas Deus não pode; 5. Além disso, a proposição citada acima, refere-se às coisas infinitas e, não as coisas finitas.

[36]  A metafísica de Spinoza trouxe a definição de substância como causa em si mesmo, ou causa sui, existindo por si, e, por si concebida. Já a definição de atributo como o que o intelecto percebe como constituindo a essência da substância.

Registram-se oito definições no livro de Ética de Spinoza da causa sui que é coisa finita em seu gênero, a de substância, a de atributo, a de Deus, a de coisa livre e a eternidade. Sete formas escritas como notae per se, ou seja, princípios universalmente aceitos, evidente s e indemonstráveis que são a base de nosso raciocínio. Somente a definição de Deus será demonstrada nas proposições da obra Ética.

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