Macunaíma: um ensaio sobre o Brasil

(O livro, o filme, o país e um milhão de etc.)

Em 1928, seis anos depois da Semana de Arte Moderna que revitalizou o Brasil da época, o escritor Mário de Andrade escreveu seu maior feito: Macunaíma, a história de um índio extremamente preguiçoso que se encanta pela metrópole paulistana e vive de oportunismos, furtos e muita malandragem. Provavelmente o autor não tenha vivido o suficiente para entender ou dimensionar o tamanho que sua aventura literária ganharia com o passar das décadas. O livro, hoje a meu ver leitura obrigatória para qualquer estudante que se preze (ou, ao menos, assim deveria ser), ganhou o status de cult e figura em qualquer lista já feita das maiores obras literárias nacionais já criadas.

Ciente disso, tanto do prestígio gerado pela narrativa como da própria narrativa em si, cheia de melindres, o diretor Joaquim Pedro de Andrade decidiu realizar em 1969 um adaptação cinematográfica do livro, contudo desconstruindo a realidade proposta na narrativa para uma outra, esta mais afeita aos tempos ditatoriais em que o país vivia. Portanto, o índio Macunaíma e seus irmãos Maanape e Jiguê tornam-se favelados, sua amada Ci vira uma guerrilheira em tempos de luta armada, o cenário utilizado para dar estofo à trama migra de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Mais do que isso: o cineasta cria uma grande alegoria, em forma de sátira, sobre a história não-oficial desse país que conhecemos em tese como República Federativa do Brasil. Ele reinventa a identidade nacional através de uma figura típica de nossas terras: o malandro picareta.

Grande Otelo e Paulo José (em atuações magníficas, mesmo que em alguns momentos exageradas) dão vida ao protagonista que vive atrelado ao seu constante desejo de hedonismo. Não, meus caros amigos, vocês não leram errado, não: Macunaíma é vivido por dois atores de etnias difrentes, um branco e um negro. E a própria dicotomia que envolve essa questão já fala por si só dentro da película.

O Macunaíma negro é um excluído, um martirizado, um homem cuspido no mundo (quase abortado), rejeitado pela própria mãe, que luta com unhas e dentes para encontrar o seu espaço em meio a um território agressivo e uma família que não o entende sequer 10%. E para isso utiliza-se de todas as artimanhas possíveis para sobreviver a esse habitat indecoroso. Já o Macunaíma branco é um bon vivant, um esperalhão, que escolheu como way of life a eterna mania de se encostar nos outros. Por isso, trai seus próprios irmãos, se acomoda em residências alheias como se elas fossem suas, e está sempre interessado em fazer parte da elite fútil que habita o país.

Como pano de fundo a esse anti-herói, um panorama (com cinco décadas de antecedência) daquilo que o Brasil se tornaria nos dias de hoje: uma nação de acomodados, de gente que se vangloria de passar a perna em seu semelhante e que não foge da oportunidade de almejar o sucesso, de preferência sem o menor esforço.

A política da boa vizinhaça durante a Segunda Guerra Mundial, que visava aproximar as culturas americana e brasileira, e por conta disso reuniu Walt Disney e Nelson Rockfeller, nos deixou como legado o personagem Zé Carioca, o estereótipo da malandragem animada (ou, para alguns, o retrato da preguiça com que os americanos enxergavam a nossa nação). E preguiça é um pecado capital - ou um modus operandi, fica a seu critério definir - que bem define nosso herói. Sempre preferindo a boa vida na rede ao trabalho pesado, o "Zé Carioca" Andradiano é de uma ironia fina, capaz de fazer inveja à grandes personagens da literatura mundial.

Macunaíma segue seus estereótipos torpes e se transforma a cada passagem do livro: de desinteressado à oportunista, de oportunista à gigolô, de gigolô à ladrão, de ladrão à fatigado, retornando a sua terra natal, por acreditar que a metrópole só está interessada em escravizar seres humanos e dar valor de fato às máquinas.

Se por um lado é difícil gostar do caráter de seu protagonista, epítome máxima do cafajestismo, por outro é meramente impossível não torcer por ele, não desejar saber até onde sua calhordice irá. E isso, meus caros leitores e espectadores, é muito mais do que mera curiosidade. Trata-se de uma das figuras mais interessantes de nossa literatura e dotada de um senso de realidade único.

Como dizer que o Brasil de Macunaíma é leviano, mentiroso, fora da realidade? Falamos de um país acorrentado por mais de duas décadas de ditadura, que passou por dois impeachments, com uma taxa de analfabetismo gritante, que não faz força para esconder seu racismo e que sobrevive às custas de uma classe trabalhadora eternamente maltratada por um estado opressor e inadimplente, vendo como único recurso à sobrevivência a espertalhonice e o golpismo. E isso - mais uma vez repito - com cinco décadas de antecedência.

Não, meus amigos, nesse caso qualquer semelhança não é simplesmente mera coincidência. Os que chamaram a história disso já estão a postos, ávidos por calar a maioria analfabeta funcional. Já os mais instruídos (uma minoria cada vez menor em nosso país) preferirão suas próprias escolhas.

E se forem de fato inteligentes, guardarão essa experiência - cheia de entrelinhas e etcs - para o resto da vida. E um livro repleto de anotações, é claro!

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