Ódio: um estudo de caso

(Uma reflexão contemporânea)

O ódio.

Nada é mais duro, mais implacável, mais direto, mais inescrupuloso do que ele. E está em todas as partes do planeta: nas discussões sobre aborto, racismo, descriminalização das drogas, homofobia. Está nas filas dos cinemas, dos bancos, dos supermercados, nas discussões entre vizinhos, na relação patrão/empregrado, nas reclamações ao Governo corrupto e injusto, na falta de educação, transporte, saúde, na dicotomia rico x pobre. Em todos os lugares por onde se anda, se esbarra nele.

E pior: nunca se falou tanto de ódio como no século XXI. Na verdade, falar sobre o ódio nesse recém-começado século é tão complicado quanto definir quando ele próprio começou. Os mais religiosos dirão: "a culpa é do Caim. Foi ele que matou Abel e começou com tudo isso!". Os adeptos à uma versão contemporânea provavelmente defenderão a tese de que o ódio coletivo atual é um desdobramente de tudo o que os ditadores (Hitler, Pol Pot, Pablo Escobar, Idi Amin Dada e tantos outros) um dia já pregaram, e chamaram de democracia (que é, por si só, um conceito mais do que vilipendiado na sociedade atual). Eu, confesso, não conseguiria determinar com precisão quando tudo começou.

Já cheguei a me perguntar, num passado remoto, a respeito da autoria do ódio. Quem teria sido o primeiro a dar pontapé decisivo para criar essa cultura de desrespeito e raiva? Entretanto, acabei desistindo por falta de provas cabais sobre quem seria o culpado. E além disso o ódio, por não parar de se alimentar um segundo sequer, não permite que eu perca o meu tempo tentando definí-lo ou classificá-lo. Portanto, melhor voltar ao mundo real.

O problema é que o mundo real também não permite que respiremos, pensemos no assunto. E o ódio perpétuo dentro dele se diversifica, assume várias facetas, está travestido de ciúmes, inveja, intolerância religiosa, despeito, vaidade e outros sentimentos ainda mais torpes e que vocês provavelmente já devem ter se deparado em alguma esquina próxima das suas residências. Sim, meus caros, ele está logo ali, aporrinhado, tentando fazer vocês perderem a paciência, a esportiva, a elegância, a cabeça, o chão e o que mais vier no pacote.

Certa ocasião conheci uma jovem na faculdade que me disse que o ódio quando se apresenta diante de cada um de nós pela primeira vez, ele parecia com uma espécie de desorganização, tirando-nos de nosso eixo, fazendo com que ficássemos alucinados por tempo indeterminado. Nunca me esqueci dessa moça e de seu comentário e acredito que tal raciocíno também deva ser trazido à baila aqui, para compor este mísero texto que em nenhum momento pretende esgotar o tema ou ser cínico. Afinal de contas, ódio é coisa séria e vem ganhando - nos últimos anos - uma conotação de calamidade pública.

O tempo passou para nós, brasileiros, e não trouxe as benesses aguardadas. Prometeram o mundo e mais um pouco (aquela velha falácia de "país do futuro" na língua de fariseus engravatados que amam se locupletar da miséria e da esperança alheia) e nada cumpriram. A copa do mundo passou, as olimpíadas passaram, o futuro... Passou também. E com essa última passagem surgiu o ódio em forma de manifesto, greve, quebra-quebra, repúdio, crítica, cartazes e faixas, xingamentos... Ufa! Um Deus nos acuda (ou será melhor dizer: sem ajuda?)

Nas redes sociais (nunca entendi o que tem de socialização em ficar criando um mundo online acima de qualquer suspeita, onde os defeitos, vícios e verdades são diariamente varridos para debaixo do tapete com uma facilidade que chega a ser repugnante, mas vá lá!) o ódio é ainda mais ostensivo, ululante, feroz. E ainda conta com ajuda da covardia promovida pelo anonimato. E quem se levanta contra ele ganha os piores desaforos, tratamentos e rótulos possíveis. A todo momento é notória a capacidade de sites como facebook, twitter e you tube, entre tantos outros disponíveis, de ilustrar a desumanização do homem.

Ninguém escapa impunemente. Negros, índios, muçulmanos, asiáticos, homossexuais, pessoas de inclinação política distinta ou formação cultural díspare ou mesmo gosto musical underground... Ninguém consegue fugir das garras da opressão e do ódio tecnológico. E a pergunta que fica é: que mundo é esse onde pessoas de óbvio caráter deturpado conseguem estatizar o ódio, esconder suas identidades e ninguém, absolutamente ninguém, combate isso dentro desse mesmo mundo de forma efetiva?

Parece piada ou comédia de humor negro dirigida pelos irmãos Coen, mas não é. O nome disso: República Federativa do Brasil. Ou simplesmente mundo. Acontecendo aqui. Agora. Nesse momento. Na sua vizinhança. Na minha. Na de todos nós. O tempo todo. E ninguém se envolve, ninguém se compromete. Não existem correntes que lutem contra isso. Ao contrário das enormes filas feitas com semanas de antecedência por adolescentes nos entornos dos estádios de futebol para assistirem as turnês dos seus ídolos do rock, não existe a mesma predisposição quando o assunto é lutar contra o ódio (ou preconceito, ou injustiça, ou o que quer que seja). Nessa hora, as pessoas simplesmente desaparecem, escondem-se, finjem-se de surdas, mudas, cegas.

E esse é um outro ponto importante a ser ilustrado aqui: o ódio vence até mesmo a coragem dos homens.

Poderia imaginar uma série de situações odiosas e covardes e injustas e doentias e pior do que tudo isso corriqueiras e ainda assim não chegaria a 1% da capacidade do próprio ódio de se alimentar de nossas fraquezas e de nossa ignorância ao viver em sociedade. Sim, meus caros leitores. nada é forte na decisão do ódio secular que rege o mundo do que saber o quanto somos ignorantes e fracos em excesso no que tange a conviver coletivamente.

Em outras palavras: nós permitimos. A todo momentos facilitamos a vida desse sentimento atroz. Compramos durante décadas as maravilhas criadas pela cultura pop dos EUA e não questionamos o outro lado da moeda: o quanto ela traz de nocivo para nossas vidas e nossos lares. Defendemos lados, segmentos, tribos, sem nem saber se a luta deles é mesmo louvável (hoje tenho minhas sinceras dúvidas, após conhecer parte de seus trabalhos, se os cartunistas do tablóide francês Charlie Hebdo eram de fato inocentes do que lhes aconteceu). Vivemos apaixonados por um mundo de aparências que se mostra dia a dia mais incômodo, mais inútil, mais injusto.

"Quando isso acabará?", gritam os últimos sobreviventes da sanidade mental do mundo. Acreditem: eu ainda consigo ouví-los. E infelizmente a minha resposta é: não sei. Gostaria muito de saber. Tudo parece tão distante de uma solução eficaz e verdadeira. O mundo anda precisando de um grande reboot. Precisamos reiniciar de alguma forma.

Resta saber se a humanidade tem coragem para tal ousadia ou se já perdemos o jogo de vez e estamos apenas sobrevivendo até onde der. Parodiando Claude Lévi-Strauss: Tristes trópicos estes em que nos tornamos!

Denunciar conteúdo

Tem algo a dizer? Esse é seu momento.

Se quer receber notificações de todos os novos comentários, deve entrar no Beevoz com o seu utilizador. Para isso deve estar registado.