Os trapalhões no cinema: um tempo mágico

(Memórias de infância 7)

Nos últimos anos o humorista Renato Aragão construiu uma fama ao redor de si mesmo extremamente ruim. Foi acusado por muitos de seus outrora fãs de injusto, mau colega de trabalho, prepotente, mentiroso, entre outros adjetivos ainda menos nobres. Pior: foi associedo até mesmo à figura de Judas, pela forma como tratou seu ex-colega dos tempos de Os trapalhões, Dedé Santana. Tudo isso, enquanto enriquecia a sua imagem, sempre relacionada à da campanha Criança Esperança (hoje vista com descrédito por muitos setores da sociedade).

Contudo, não há como negar - mesmo que assim o desejemos fortemente - que o quarteto original dos trapalhões, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, marcou e ainda marca, na lembrança, a infância de muita gente. Dentre elas, o do suposto articulista que aqui narra de tempos em tempos suas lembranças infantis nessa coluna que já chega ao seu sétimo número (e olha que eu não imaginava passar da segunda!). Os trapalhões foi um programa popular que marcou época por onde passou. E isso num período em que a televisão ainda podia ser dar ao luxo de ser ousada (vide programas como Perdidos na noite, com o - na época - bonachão Fausto Silva, Chico City e Viva o gordo).

Suas piadas politicamente incorretas; seu deboche muito bem bolado à cultura popular que se fazia à época, principalmente no quesito musical, com as reinterpretações de clássicos da MPB; sua vontade de ir além e abusar do humor fantástico da dupla muitas vezes vista como coadjuvante do programa (Mussum e Zacarias), mas que na verdade eram os verdadeiros reis do espetáculo ali feito, embalaram gerações e fizeram muita gente se esborrachar no chão de tanto rir.

Só que é preciso fazer um adendo especial a um segmento produzido pelos trapalhões: o dos filmes de cinema. Perdi as contas ao longo da minha infância de quantas vezes me programei, junto com meus primos, todos pequenos, para ir ao cinema com minha avó materna para asssitir os filmes do quarteto. O simples trajeto à sala de projeção (naquela época ainda não existiam os kinoplex e UCIs da vida) já era por si só uma grande algazarra, com direito a muito drops dulcora, balas de leite Kids ou bala boneco (a minha favorita) e chocolate surpresa (que até hoje eu me pergunto porque teve de sair de circulação).

Os trapalhões, meus caros amigos e amigas leitores dessa coluna, marcaram época na sétima arte brasileira. E em alguns momentos, foram únicos. Mesmo porque, durante o período do governo Collor, com o fim da Embrafilme, eles acabaram sendo a única opção como produto cinematográfico nacional nas telas. Porém mais do que isso: brincaram com gêneros e clássicos de nossa literatura e do nosso imaginário popular.

Renato Aragão nunca escondeu sua paixão pelos clássicos imortais da literatura universal. E brincou à sua maneira com grande parte destes best-sellers eternos. Alexandre Dumas (Os mosquiteiros trapalhões), os irmãos Grimm (O cinderelo trapalhão), Henry Rider Haggard, Robert Louis Stevenson (Os trapalhões na ilha do tesouro), L. Frank Baum (Os trapalhões e o mágico de oroz), relatos das Mil e uma noites (Sinbad, o marujo trapalhão)... Isso sem contar as sátiras ao movimento Jovem Guarda com Na onda do iê-iê-iê, parcerias com o desenhista Maurício de Sousa (Os trapalhões no reino da fantasia), Samba, futebol (Os trapalhões e o rei do futebol) e um gama de atrações as mais diversas.

Toda produção do quarteto tinha um caráter de filme-evento, e ali se viam os artistas que mais estivessem em evidência naquele período ou cujas figuras já fossem lendárias por natureza. De Pelé à Sérgio Mallandro, de Luíza Brunet ao grupo Dominó, de Gugu Liberato (naqueles tempos, líder de audiência no SBT com seu programa Viva a noite) à Supla, roqueiro e filho do deputado Eduardo Suplicy, e até mesmo o hoje cult Maurício do Valle, que também trabalhou com Glauber Rocha como o inesquecível Antônio das mortes e musas eternas do período da pornochanchada. Sem contar diretores renomados atrás das câmeras, como J.B. Tanko, Carlos Manga e Roberto Farias, que ficou conhecido no Brasil, entre outros projetos, pela trilogia de filmes com o cantor Roberto Carlos.

Em outras palavras: Didi, Dedé, Mussum e Zacarias foram de tudo. Mineradores, artistas de circo, cientistas, funcionários de escola, babás, pais adotivos, jogadores de futebol... E o que mais você puder imaginar.

Se eu puder elencar o top do quarteto dentre toda a sua filmografia, a ordem é: 1. Os saltimbancos trapalhões (flerte do grupo com hollywood e trazendo o mundo do circo para a sétima arte) 2. Os trapalhões e o auto da compadecida (baseado na peça homônima de Ariano Suassuna e trazendo uma rara - e interessante - interpretação dramática de Mussum. Procurem!) 3. Os trapalhões na serra pelada (trazendo como pano de fundo o maior garimpo a céu aberto da história da humanidade).

Com o tempo (e o avançar da idade) as grandes ideias foram escasseando e dando lugar à bobagens e produções para lá de meia-boca, mas isso é o de menos. Grandes comediantes como Chico Anísio, Jô Soares e Agildo Ribeiro também passaram por isso. Acontece.

Ao apagar das luzes e quando a velhice trouxe para a dupla remanescente (Mussum e Zacarias, como todos sabem, já partiram para o outro plano) o amargor da geração que tem se especializado em pichar o passado cultural do país, seja lá porque viés for, prefiro ficar com minhas saudosas memórias e com uma certeza: nunca houve um grupo, pelo menos no cinema, que simbolizasse tão bem a minha geração. E como é triste saber que as próximas gerações estão preocupadas com coisas mais ordinárias e prefiram um mundo ou atrelada à livros religiosos ou à ignorância.

É como bem dizia meu professor de história dos tempos de ensino médio (na época, segundo andar): "cada um escolhe o idolo que merece!".

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