A guerra é uma questão de tempo!

(A paz perpétua e a animalização do ser humano)

Perguntem a qualquer intelectual do momento, a qualquer grande pensador vivo, a qualquer pessoa minimamente lúcida do seu meio social, qual a questão mais preocupante do chamado mundo contemporâneo e praticamente 90% deles lhe dirão sem sombra de dúvidas que é a crise humana que se abateu sobre nós. Crise de valores, de ética, de senso de normalidade. Transformamos o mundo - é triste admitir, mas é um fato! - numa competição sem limites, onde o vencedor para levantar a taça se submete às práticas mais terríveis e desonestas já vistas na história da humanidade. E mais: quem se rebela contra o jogo é tratado como pária, é achincalhado, insultado, menosprezado e sabe lá Deus o quê mais.

Ciente disso, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma alegoria para lá de sarcástica tomando como referência o mundo animal. A paz perpétua (título inspirado pela obra homônima do filósofo Immanuel Kant) traz três cachorros que são levados de uma competição num estádio para uma galpãp abandonado onde serão testados de todas as formas possíveis e imagináveis, visando a escolha de um deles (apenas um) como representante da elite canina contra o terrorismo.

John-John (José Loreto) é o cão criado e treinado pelas melhores instituições do gênero. Cruzamento das mais distintas raças, é o exemplo máximo de força bruta já criado até então. Odin (João Velho) é, provavelmente, o mais sagaz do trio, o intuitivo, dono de um olfato apurado e formado pela "escola da vida" após ser abandonado pelos donos. Teve de aprender a defender o seu território com unhas e dentes para não acabar estraçalhado pela concorrência. E Emanuel (Kadu Garcia), o cão-guia, que aprendeu filosofia através das leituras de sua dona, e que nunca conseguiu superar a morte dela após um atentado terrorista.

Esses três cães-homens (ou homens-cães) disputarão cerebralmente e emocionalmente o direito de conquistar a coleira branca, símbolo máximo da autoridade. Como pano de fundo, do outro lado das paredes que os cercam, gemidos e lamentos são ouvidos a todo momento. Há alguém do outro lado do "muro", tão vítima dessa história quanto eles. E eles não fazem a mínima ideia do quanto a vida dos quatro está interligada.

O diretor de teatro Aderbal Freire-Filho (de clássicos da dramaturgia como Moby Dick, de Herman Melville e Hamlet, de William Shakespeare, que se tornou cult aqui no Rio por trazer o ator Wagner Moura no auge do sucesso de Tropa de elite na pele do príncipe da Dinamarca) traz para nossa cidade essa importante investigação sobre o homem pós-moderna, contada por um viés que muitos poderiam considerar à primeira vista surrealista em excesso ou extremamente ininteligível. Ledo engano! Raras vezes nos últimos anos estive diante de um estudo de caso tão lúcido e tão bem construído quanto o ponto de vista de Mayorga.

Discussões filosóficas as mais diversas (o debate sobre a teoria de Pascal sobre Deus é de uma mordacidade sem igual), a violência urbana retratada através de uma sonoridade incômoda e intencional (o som que sai dos fones de John-John, o apito estridente usado para afastar os cães em momentos de briga, a música que Cassius - o cão-selecionador - ouve de tempos em tempos, quando está sozinho no palco, um espécie de anestesia contra o mundo violento onde sempre habitou), que faz com que o público espectador não se distraia em momento algum e mais do que isso: faça parte do martírio, sinta a mesma dor acumulada de seus personagens, ora despedaçados, ora fingindo virilidade. Adestramento, luta de classes, a eterna discussão puros x mestiços (que remete, por mais que não queiramos admitir, a debates como o do nazismo e sua super-raça e a recente onda de refugiados na Europa, homens considerados sem alma ou identidade, porque fracos, menores, impuros).

Ao final do espetáculo o público em massa levanta-se e aplaude. Gritos de bravo!!! são ouvidos. Os atores agradecem, orgulhosos do resultado. Porém, mais do que isso, a sensação forte, vívida, de termos sido golpeados de forma dura, cruel, está lá, viva em nossos corpos. Enquanto caminhava de volta para casa peguei-me pensando: "cara, eu fui atropelado e meio que agradeci ao meu atropelador. Eu precisava disso. Eu precisava desse choque de realidade. Agora. Nesse momento".

A paz perpétua é isso: um choque de realidade sobre o mundo que não queremos enxergar porque estamos o tempo todo brincando de casinha, fingindo de simpáticos, tentando transformar tudo numa festa sem hora para acabar, tirando fotografia de tudo e de todos na expectativa de que o mundo diante de nossos olhos simplesmente não desapareça. Por favor, não desapareça! Agora não. Mas em nenhum momento se perguntam: "que mundo é esse, meu Deus?".

Vivemos a era da desumanização. Pior: da animalização do homem. E como esse homem sobreviverá ao futuro, um futuro de regras forjadas e mudadas a todo momento, sem credibilidade, parece ser a mais atroz das dúvidas. Há quem chame até de preocupações.

Em plena era de musicais bobalhões infestando os teatros pela cidade e standups sem noção sendo rotulados de formadores de opinião, como é bom saber que ainda há pessoas nesse meio dispostas a incomodar, a gritar, a bater de frente com o sisteme mesmerizador que nos castra cotidianamente. Como é bom saber que você não é o único, o último, o sobrevivente! Porque a guerra, minha gente, é só uma questão de tempo. Na verdade, ela está de olho em você neste exato momento. Então, abre o olho...

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