Atari: o pioneiro dos games

(Memórias de infância 8)

Não adianta: nunca vou entender esses adolescentes que chamam videogame de "experiência de vida".

O mundo dos games mudou mesmo! E mudou muito. Hoje em dia - acreditem se quiser - já existem jogadores de videogame profissionais. Isso mesmo! Profissionais que ganham a vida (como qualquer arquiteto ou engenheiro ou advogado) jogando videogame. "Tempos modernos", diria meu pai. Será?

Enfim... Não é disso que se trata o artigo e sim da minha admiração à época em que os games eram apenas games (um período anterior ao Playstation e ao Xbox). Em outras palavras: eu sou da época do Atari e seus rivais - Dactar, Odissey, Dynacom, etc etc etc...

O surgimento do atari se dá em 28 de junho de 1972, mas ele só entra na minha vida por volta de 1982, 1983... É. Por aí. Eu cursava a quinta série do ensino fundamental quando meu pai chegou em casa com meu presente de natal (e, claro, toda aquela história do papai noel e blá blá blá). Fiquei encantado com tudo aquilo. Não foi o meu primeiro videogame - eu já havia feito muitos calos nas mãos com o inferior, mas não menos divertido Tele Jogo -, mas certamente foi o mais bem recebido. Eu tinha um primo que possuía um Odissey e naquela época acreditava que os donos do Odissey eram como os donos de videocassete betamax (vocês sabem: aqueles com as fitinhas menores). E quando chegou o meu atari eu quase enlouqueci. Me vi como parte da turma. Sem saber explicar exatamente que turma era essa.

O atari marcou a minha geração não por seus gráficos perfeitos e jogabilidade impecável, como se vê hoje em dia, em tempos de alta definição e realidade virtual, mas por sua capacidade de entreter com tão pouco. Eram jogos simples, bem a cara da garotada daquele tempo, que não estava interessada em jogos de RPG e desafios exorbitantes. Era meio como brincar de amarelinha na rua ou soltar pipa com os filhos dos vizinhos.

Fazer uma lista dos meus favoritos é, por si só, um crime e uma injustiça com a empresa que tinha muitos exemplares ótimos, daqueles que se os seus pais deixarem você vira a noite e esquece de dormir jogando. Os que mais me consumiam eram Seaquest e Decathlon. O primeiro, um submarino que submergia ao fundo do mar para matar peixes e outros submarinos, enquanto resgatava mergulhadores, mas que volta e meia precisava subir para pegar oxigênio (do contrário, explodia). O segundo, famoso na época porque ficou conhecido como o "quebra-controles", por causa das provas de corrida de 100 e 1500 metros. Era uma versão barata das modalidades de atletismo nas olimpíadas. Com direito à abertura trazendo o atleta carregando a tocha olímpica e tudo!

Porém, não somente eles. O atari possuía opções as mais diversas para os públicos mais distintos, como automobilismo (o mais que famoso Enduro, onde a cada 200 ultrapassagens você passava de fase), aventuras espaciais (Moon Patrol e H.e.r.o, Atlantis, River Raid, Venture), aventuras na neve (o esquimó de Frostbite, que construía sua cabana a partir de cada degrau de gelo pisado, enquanto o urso ficava na expectativa para te devorar), aventuras na selva (o eterno Pitfall, pulando por cima de jacarés e fugindo de escorpiões e areia movediça), marcas consagradas - inclusive por videogames posteriores - como Donkey Kong, Ms Pac Man e Popeye, Freeway (a galinha tentando atravessar a rua em meio ao trânsito caótico), Keystone Kapers (a versão made in USA do polícia e ladrão) e esportes como Boxe, Basquete, Futebol e tantos outros (esses, eu confesso: com o passar do tempo e o surgimento dos novos consoles, só melhoraram!).

(Nota importante: havia o X-Man, um jogo meio adulto que os pais raramente compravam para os filhos, e mostrava até uma tesourinha usada para castrar o personagem principal. Eu passei anos procurando aquilo para comprar e nunca encontrei o cartucho em nenhuma das lojas de game que eu entrei. E mais: os vendedores ainda riam, quando viam a minha cara de frustração. Coisa de criança!).

Quem possuía o videogame, salvo raras exceções, normalmente detestava aqueles controles quadradões, preferiam as versões em formato manche de helicóptero da Dynavision. E quando os cartuchos começavam a pifar e você ficava soprando e resetando o tempo todo, na tentativa de fazê-los ligar na marra, era um Deus nos acuda! Principalmente quando se tratava de um jogo muito antigo, que as lojas já não comercializavam mais, pois davam ênfase aos lançamentos mais recentes. Resultado: o jeito era apelar para as locadoras de games (sim, meus amigos, isso existia. Já faz tempo, mas existia!).

Pois bem: o tempo passou, o atari perdeu espaço para novas tecnologias, eu ganhei um Phantom System (que a princípio, mexeu com a minha curiosidade porque trazia uma pistola estilosa para jogos de tiro, como Duck Hunt - o nosso caça ao pato), vieram a Sega e a Nintendo lutando de foices na mão em busca de clientes e logo depois o império polarizado pelo Playstation e o XBOX - já mencionados acima -, mas nenhum deles conseguiu me divertir como o antigo atari.

Às vezes acredito que o encanto se perdeu porque deixaram de tratar as crianças como crianças. Hoje, elas não passam de versões miniaturizadas de seus pais. E quando chegamos a um ponto em que crianças não querem ser chamadas de criança, é porque a vaca foi para o brejo de vez.

Acho que esse foi o texto da série memórias mais nostálgico que eu fiz e tenho razões para isso: há certos acontecimentos e fenômenos que ocorrem na vida da gente que são para sempre, moldam nossa personalidade, tornam-se lembranças indestrutíveis do melhor de nossas vidas. O atari representou isso para mim. E não sei ao certo, em plena era do artificialismo e do descartável, se as novas gerações terão do que se lembrar de bom daqui para frente.

Mas quem sou eu para pensar nisso? Um reles fã divagando... Aliás, procurem no google. É possível ainda jogar tudo isso em versões de emuladores. Acreditem: é uma viagem no tempo!

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