Poesia Agora!!!

3Recompensas

(Uma exposição - e um gênero - que não envelhece)

Estado de espírito. Inexplicável. Resistência. Lúdica. Linguagem. Tribal. Catarse. Extraordinária. É tão fácil (e ao mesmo tempo tão complexo) adjetivar, classificar a poesia. Fosse ela um estudo de casa, levaríamos milênios analisando-as sem, contudo, chegar a um denominador comum. O gênero poético é múltiplo por natureza. E que bom que seja assim! Nada mais careta no mundo de hoje, cheio de estereótipos, misoginias, comportamentos homofóbicos, racismo, do que definições rasteiras, comuns.

A poesia é... (Complete como melhor lhe aprouver). Tudo cabe nesse mundo cheio de experimentalismos, gírias, verbos, vírgulas, gritos, posturas, enfim, nessa metamorfose linguística.

Agora chega de divagações para que este artigo não soe cansativo e vamos aos fatos (se é que isso é possível, tendo em vista o tema). Esta semana numa ida rápida ao centro da cidade deparo-me com uma exposição na Caixa Cultural. Seu nome: Poesia agora. E independente de quem esteja envolvido na curadoria ou nos autores abordados, adentro o recinto. Adoro o mundo poético e não vou perder a oportunidade de saber mais sobre o assunto.

Se eu pudesse resumir a exposição em uma palavra, seria: UAU!!! Assim mesmo, com maiúsculas e milhões de exclamações.

Esqueçam os clássicos. Nada contra Fernando Pessoa, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Cassiano Ricardo, Augusto dos Anjos e outros gênios da pena no quesito. O tema em voga aqui é a poesia contemporânea. Mais especificamente do grupo que vem surgindo nos últimos anos graças à tão mal-falada, a tão desgraçada, a tão polêmica, internet.

Entre os mais de 500 artistas contemplados há autores ainda anônimos no formato livro e nomes já consagrados da mídia, como Gregório Duvivier, Fabrício Corsaletti, Angélica Freitas, Alice Sant' Anna, entre tantos outros. Entretanto, o valor real aqui não está escondido atrás de renomes e famas. Juntas, essas poesias falam como um corpo único. E pedem passagem, querem encontrar um caminho em meio a um mercado que nos últimos anos parece mais interessado em biografias do que em obras. O que todos esses homens e mulheres descritos aqui querem é uma única coisa: o direito a serem lembrados, a serem lidos, a serem reconhecidos. Como tantos outros grandes autores de nosso país cujo único mérito que ainda não possuem é o de um pseudônimo que os legitime.

Após ler o mural introdutório que explica as motivações da mostra, o porquê de sua realização, adentro o recinto. O espaço é curto a princípio (quer dizer: assim eu pensava). Várias tábuas com luzes fluorescentes presas. Nas lâmpadas, o registro poético e seus autores. Poemas curtos, quase haicais. Contudo, repletos de paixão. De verdade. De vontade de buscar o infinito.

Mas como disse no parêntese do parágrafo anterior: eu pensava ser um espaço curto o que abrigava a exposição. Ledo engano, meus amigos leitores! Havia muito mais a ser explorado. Há também cabines de vídeo, repletas de depoimentos, apresentações artísticas, desabafos poéticos. Como esquecer da poesia das ruas, dos grafites anônimos abandonados ao relento (abandonados?), do rap subversivo, periférico, ácido, principalmente o paulistano, cada dia mais em voga nos jornais e programas televisivos. Basta pôr os fones de ouvido disponíveis e embarcar nessa viagem lúcida, quase lisérigca, original.

A poesia visual, estampada, na íntegra, muros. Esperando de você, leitor, três comportamentos: escutar, ver, sentir. Numa clara referência à expressão verbivocovisual prometida pelos poetas concretistas que tomaram o mundo das palavras de assalto propondo novas conjunturas e significados. Brilhante!

Acham que acabou? Não, não, mil vezes não. Faltou a minha, a sua, a nossa participação no processo. Sim, meus caros, é possível criar o seu próprio poema e deixá-lo na urna disposta numa das salas, com direito a mesas, canetas e blocos de anotações para rascunhar os seus devaneios, as suas esperanças, o seu frenesi. É do interesse da exposição que novas gerações poéticas surjam e quem sabe você (você mesmo!) possa fazer parte da próxima, quem sabe até da próxima exposição, por que não? Basta tentar, se comprometer.

Termino o passeio que dura quase duas horas em êxtase. Raras vezes vi tamanha quantidade de conhecimento restrita a um espaço tão pequeno. Ouço um dos organizadores dizendo que um dos palestrantes do dia já chegou. "Ainda há palestras com personalidades do meio?", pergunto-me. "Sim", responde uma das moças. Penso comigo então: aí é covardia.

Saio da Caixa Cultural ciente de uma certeza: a poesia é o gênero que não envelhece. Camaleônica por natureza, se transforma, se modifica, procura sobreviver aos mais terríveis habitats. É uma sobrevivente nata de séculos e séculos de intolerância e preconceito. E não tem quem a destrua.

Longa vida a ela!!!

Denunciar conteúdo

Tem algo a dizer? Esse é seu momento.

Se quer receber notificações de todos os novos comentários, deve entrar no Beevoz com o seu utilizador. Para isso deve estar registado.