Como se faz um hit?

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(Distorções da chamada cultura pop)

Depois de ver todos os programas de tv e rádio repetindo a mesma ladainha insistente sobre o hit do momento, Despacito, do cantor Luis Fonsi, e não aguentar mais ouvir um refrão sequer, me peguei pensando nos últimos dias a respeito do que seja um hit, como definí-lo, classificá-lo, colocá-lo na respectiva categoria. Há uma fórmula secreta por trás de cada sucesso da cultura pop? E mais: há uma explicação que não seja pobre, primária, tendenciosa para justificá-lo? Alguma coisa sempre me disse que não, mas decidi escrever sobre o assunto e acabei por acreditar que ele mereça ser estendido para outras mídias, outas linguagens, e não se restringir unicamente ao mercado fonográfico. Vamos lá?

Não sei ao certo quem foi o pensador que disse "Quer ser famoso? Seja medíocre! Do contrário, você não chegará lá", mas ele estava coberto de razão. Entra dia, sai dia, eu chego à conclusão de que sucesso (em inglês: hit) é sinônimo de algo raso, inútil, medíocre, quase criminoso.

Já que o primeiro parágrafo traz como exemplo a canção (que já uma série de versões nacionais ainda mais terríveis), fiquemos primeiramente na categoria música. Não faz muito tempo uma moça que se diz atriz ganhou um prêmio da MTV (provavelmente, a voz mais digerida pelos adolescentes desmiolados desde o meado da década de 80) por cantar uma música que tinha como refrão a expressão "vai tomar no cú". Não. É serio. Procurem no you tube aqueles que acreditam que eu esteja inventando um fato irreal. É lamentável!!! Pois bem: desde minha surpresa ao ouvir a suposta "música", venho me dando conta do empobrecimento da música ao redor. Desde o insuportável "toma aqui os cinquenta reais!" do hoje repetitivo sucesso sertanejo até a exaustiva Beyoncé Knowles repetindo "who run the the world? Girls!" até meus tímpanos quase estourarem. Empoderamento feminino, ostentação, brigas de casal, lavagem de roupa suja, são temas que não saem de moda nos últimos anos, provando que um hit musical está muito associado ou à uma vida leviana ou ao ressentimento por parte de uma sociedade que quer provar ao seu semelhante que venceu na vida e não perde a chance de jogar na cara. Triste, mas fato.

Já no âmbito editorial, é fácil entender o que se tornou hit (leia-se: best-seller) nos últimos anos. E tem a ver com um tipo diferente de vaidade. Aqui, como fica visível em nomes como Augusto Cury, Olavo de Carvalho, Thalita Rebouças e Paulo Coelho, há uma necessidade de provar por a+b que nossos "autores" são nomes de eminente destaque, donos de um saber inigualável. Vende-se essa moral pseudointelectualidaza (que o diga os jornais, que trazem em seu conjunto de cronistas, nomes da laia de Diogo Mainardi, Lobão, Reinaldo Azevedo e outras "pérolas do intelectualismo" - tudo assim, entre aspas). Não bastasse isso, há padres autores, cantores autores, psicólogos autores, youtubers (a onda do momento), enfim... Um mar que não transborda de uma classe que não pertence em nada ao que costumava chamar de ficcionista quando era adolescente e lia coleções como as da Série Vagalume e Para gostar de ler, ambas da Editora Ática. Bons tempos que não voltam mais!

Teatro. Por acaso você tem frequentado algum nos últimos tempos? Pois é. É preciso peneirar muito até encontrar algum artista realmente de garbo. Porém, há dois segmentos que dominam a categoria hit nos últimos anos: o do stand up e suas piadas cada dia mais sem graça sobre o cotidiano cinza e babaca em que vivemos e os musicais surrupiados da Broadway e traduzidos a toque de caixa, em megaproduções que aliam elencos gigantescos e um figurino e uma direção de arte de cair o queixo de qualquer não-entendido em artes cênicas, mas que acha o máximo tudo o que é revestido de beleza e glamour. Enquanto isso, onde foram parar as plateias de bons espetáculos como o recente Gisberta, que traz o comediante Luís Lobianco na pele da transexual morta em Portugal, de Caranguejo overdrive, criação do mestre Chico Science, mente por trás da banda Nação Zumbi e do fenômeno que se tornou a música pernambucana nos últimos anos e Vaga Carne, que nos apresentou a extraordinária Grace Passô? Onde? Melhor não responder para que não me acusem de grosseiro aqui nesta coluna. Resumindo: teatro virou sinônimo daquilo que é ou espetacular ou escrachado. E nada mais.

O cinema tornou-se um problema maior depois que a Marvel e a DC comics começaram a ditar as regras do mercado e impor a filosofia de que "precisamos de heróis, o mundo está perdido, e blá blá blá". A Netflix e a Amazon studios até que tentam mostrar uma segunda via de acesso, mas a sétima arte se infantiliza (graças a impérios como a Disney mandando e desmandando cada dia mais). O bom cinema mesmo vem do Irã, da Coréia do Sul, da Ásia em geral, de nossos hermanos argentinos, da Romênia - mesmo com toda história envolvendo a ditadura que sobrevoa o país sempre que pode -, de lugares onde nunca se imaginou que um grande cinema poderia ser feito (Colômbia indicada ao Oscar, China, Rússia, Afeganistão, etc etc etc). Mas isso não é hit. Não é óbvio, não é apaixonante, não promete gargalhadas ou lágrimas óbvias e fáceis. É para os que pensam. E hollywood nunca gostou de gente que pensa. Aqui no Brasil, a receita de sucesso muitas vezes é uma frase: "um milhão de espectadores". Se você atingir a meta - como se fosse um grupo de vendedores de uma loja de departamentos que não quer perder o seu emprego e precisa fechar o mês numa certa quantia -, você é o cara. Caso contrário, mude de profissão ou contente-se a ser rotulado de piada ou de mau profissional. O problema: os melhores do nosso país não estão preocupados com isso. Nem de longe. Pergunte ao Cláudio Assis, à Anna Muylaert, A Eliane Caffé, ao Walter Salles, ao Fernando Meirelles, à Lúcia Murat, ao Selton Mello (só para ficar nos que vieram à minha cabeça agora) se é isso que os motiva a trabalhar, a continuar na batalha. O problema é que visão autoral e cifras nunca estão juntas na mesma cartilha do chamado cinema nacional, O que é uma pena. Aqui, a matemática padrão é: bilheteria + personagens babacas, cheios de piadinhas sem noção + mulheres bonitas e descartáveis, sem função para a trama + a eterna mania de soar politicamente correto. Pronto. Está feito um hit.

Eu sei, eu sei... Falei demais no último parágrafo. E ainda falta a tv, nossa velha amiga diária que um dia foi chamada, nos primórdios, de "máquina de fazer doido" (e com toda a razão). O que é hit na tv hoje? Simples: o que é babaca, presepeiro, sem conteúdo, que tenha facilidade de ser ridículo, de chamar a atenção a qualquer custo. Como diria o pesquisador Muniz Sodré: "é o império do grotesco". Live. Ao vivo e a cores. Já foi tempo em que mulheres bonitas eram sinônimo de Sônia Braga, Vera Fischer e Christiane Torloni. Já foi tempo em que telenovelas significavam títulos como Roque Santeiro, Vale tudo e Irmãos Coragem. Já foi tempo em que assistir Fórmula 1 na tv era ver o Ayrton Senna correr. Já foi tempo em que programa de humor era Chico City, Viva o gordo e TV Pirata. Já foi tempo em que televisão era televisão. Hoje? Hit mesmo são programas culinários mostrando receitas caríssimas que a maioria da população não pode comer e tem que ficar inveando, aguando, pela tela; apresentadores bobalhões, bonachões, exóticos, estereotipados, retratos do vazio existencial e cultural que tomou conta do país nos últimos anos, sensacionalismo nos telejornais, cada dia mais parecidos com programas de auditório e o tal do reality show (que de realidade, mesmo, não tem nada!). Gostou? Não? Ah, meus amigos! Mas é o que tem para hoje. Para hoje, amanhã, depois de amanhã e o dia seguinte...

Fim papo chegando e a conclusão (conclusão, não, melhor moral da história, é mais fabuloso, irreal, mais a cara desse século XXI cheio de manias mas conteúdo zero que já está quase completando duas décadas e ainda não disse a que veio) é: hit é tudo aquilo que não passa de contar vantagem, atrair atenção para si mesmo, causar (verbo que ganhou conotação de adjetivo nos últimos anos), sem profundidade ou mesmo conhecimento de causa. Muitas vezes é melhor confundir do que elucidar, pois o que é explicado não viraliza, não repercute, não dá margem à novas postagens. E os criadores de hits querem novas postagens, continuações para aquela baboseira sem sentido criada com tanto carinho para arrebanhar multidões, ludibriar centenas, milhares, milhões, e fazer os espectadores, leitores, ouvintes acreditarem piamente que o mundo, outrora chamado de ilusão pelo escritor Calderón de la Barca, não passa mesmo é de uma piada, uma orgia, uma sacanagem das brabas.

Vai ter gente me chamando de tudo quanto é nome quando ler isso aqui (e eu os entendo, os alienados!), mas eu não prometi que o artigo ia agradar a gregos e troianos, prometi?

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