Um teatro com a cara da gente

(40 anos de Trate-me leão)

"O teatro terá sempre o seu lugar na história da humanidade, não importa o quanto queriam destruí-lo, desonrá-lo, diminuí-lo, fazê-lo passar por medíocre. Ele transcenderá até mesmo a nós, seres humanos". A frase acima é de um famoso ator de teatro que frequentava um dos cinemas onde trabalhei lá pelos idos da década de 1990. E ele está absolutamente certo.

É bem verdade que ele, que nos anos que antecederam sua morte, ficou mais conhecido pelo programa de tv que apresentava na Tv Brasil, falava obviamente dos clássicos eternos. William Shakespeare, Luigi Pirandello, a Trilogia Tebana, Sófocles, Eurípedes, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos... Ufa! Falar sobre teatro é como falar sobre a vida: um assunto inesgotável.

Contudo, é preciso também falar da ousadia daqueles que tiveram como intenção primeira quebrar com as convicções e tradicionalismos do gênero. E nesse quesito acho que nenhum grupo teatral da minha geração conseguiu realizar algo perto do que fez o Asdrúbal trouxe o trombone. Mais conhecidos posteriormente, seja por seus personagens na TV Pirata, programa de humor na Rede Globo, seja pela banda de rock Blitz que abalou o universo pop naquela época em que onda era frequentar a lona do Circo Voador, estendida no Arpoador, seja por outras façanhas artísticas, os atores viraram sinônimo de uma época pós-ditadura. Eram os filhos da revolução, como bem definia o cantor Renato Russo em uma de suas canções mais célebres.

E por que, meus caros leitores, relembrar do hoje cult Asdrúbal trouxe o trombone? Porque completa nesse 2017 40 anos de uma das maiores criações coletivas do grupo, o hoje renomado Trate-me leão, escrito por Hamilton Vaz Pereira.

Trate-me leão não é o teatro dos temas grandiosos (triângulos amorosos, guerra, corrupção, falta de ética, a relação entre poder e estado, etc etc etc). Não, não e não. Trate-me leão, na verdade, é contraponto, o avesso de tudo isso. Fala de uma geração que não se via retratada nos palcos, sempre relegada a segundo plano, sempre chamada de vagabunda, de desinteressada, de maconheira, de inútil, de blasé. É para esses que Hamilton e sua trupe contextualizam. E nesse sentido são primorosos.

Utilizando-se de improvisações - técnica que viraria gênero teatral nas décadas seguintes - e jogos coletivos, a peça mostra relacionamentos desfeitos, relacionamentos múltiplos (a velha máxima "todo mundo é de todo mundo e ninguém é de ninguém ao mesmo tempo"), as taras juvenis (o filho do patrão indo para a cama com a empregada doméstica), os vícios (o mandrix, remédio para dormir, muito em voga entre os jovens que não tinham grana para comprar drogas mais pesadas), o shangri-lá ou zona de conforto (no caso da turma, Saquarema, terra mítica de surfistas e enamorados), dilemas (a proximidade do alistamento militar, escolher a profissão, o que fazer do futuro, etc), o niilismo, a sensação de estar perdido no tempo e no espaço, e sem respostas aparentes para aplacar a dúvida que os perseguia.

A indústria da propaganda, os fetiches da moda, o mercado televisivo, também marcam presença no palco, sejam nas calças US Top ou Lee, seja no Bob's, lanchonete-quebra-galho-quase-mãe dessa patota que vivia mais na rua do que em casa.

Em suma: uma peça de jovens para jovens e caso os pais desejassem assistir também, precisavam entender: eles sempre seriam os coadjuvantes da história, com direito à críticas severas por parte dos atores.

Recentemente, assisti no programa Conversa com Bial, o reencontro de parte do grupo (justamente para comemorar essas quatro décadas de sucesso), com direito à encenação no palco do final original do espetáculo. Por um lado, vê-los mais velhos, barbados, expressões marcadas, cheias de rugas, dá uma certa tristeza (e traz à tona a lembrança do quanto o tempo pode ser um inimigo implacável). Por outro, um sentimento nostálgico pleno de que a minha vida valeu a pena, independente das burradas que nossa geração fez.

Asdrúbal. Trate-me leão. Luiz Fernando Guimarães. Patrícia Travassos. Nina de Pádua. Regina Casé. Perfeito Fortuna. Evandro Mesquita. Anos 70. Praia. Mulherada. Surf (como esquecer de Exército do surf, cantado por Vanderléa, abrindo os trabalhos?). Mentiras. Traições. Adolescência. Idade adulta. Em poucas palavras: um romance de formação em formato peça teatral, com direito a todos os delírios, contestações e prazeres de uma geração que tinha tudo para nascer perdida e lutou até o fim para prevalecer a sua identidade. Gostou?

Eu também. Que venha o centenário!

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