O muro e a revolução que (ainda) não aconteceu

(Roger Waters + The Wall = um legado do século XX)

O que faz de uma obra artística um legado histórico e cultural? A sua capacidade de gerar aplausos? A sua inteligência ao incomodar o público em meio a um mundo onde tudo parece uma grande mesmice melancólica? O seu não comprometimento com qualquer verdade que seja criada pelo Estado?

Fiquei pensando em tudo isso enquanto assistia Roger Waters: The Wall no meu aparelho de DVD. Eu tentei assistir o concert film quando foi exibido pela rede de cinemas UCI, mas não consegui ingresso tamanha a procura feita pelos fãs alucinados da antiga banda a qual o cantor Roger Waters fazia parte (no caso, o Pink Floyd). Uma pena! Fiquei pensando em qual seria a minha reação vendo aquilo tudo em tela grande.

Dito isto, e não podendo fazer tempestade em copo d'água porque o que está feito, está feito, é preciso dizer: The Wall é magnífico. E digo isso em todos os sentidos: seja como estética, na escolha das canções, na capacidade que possui de questionar a política de nossos tempos e o modelo de consumo vigente. E pensar que tudo isso começou com o álbum de 1979 (portanto, uma década antes da queda do muro de Berlim, para aqueles que gostam de relacionar o espetáculo imediatamente ao seu homônimo alemão).

Breve intervalo deste projeto de escritor: recomendo altamente aos fãs da ópera assistir também o filme Pink Floyd: The wall, de Alan Parker, produzido em 1982. Acreditem: ele acaba completando lacunas que o show deixa de forma proposital.

Nunca fui um fã ardoroso do Pink Floyd, mas confesso: sempre me admirou a figura de Roger Waters. Conheço fãs da banda que o rotulam de "o antipático do grupo", rótulo esse o qual eu nunca concordei. É como The Who e Pete Townsend. Eu sempre preferi o segundo, que me perdoem os fanáticos... Waters tem uma história de vida fascinante, em que sempre teve de cadenciar dor e sofrimento com o brilhantismo de sua música. E isso fica claro aqui a cada canção exibida para o público, em meio a efeitos, bonecos infláveis, o muro - protagonista-mor do concerto -, impondo sua presença ditatorial, tentando desestabilizá-lo.

The Wall é um libelo contra o estabilishment que comanda nossas vidas a séculos. É um convite a anarquia e a revolução proposto por um homem que entende de cicatrizes e recomeços. Seu pai, morto na guerra, é uma das mais fortes.

Uma mãe que o sufocava; um sistema de ensino castrador, que nada mais faz do que produzir alienados e pessoas sem alma, cujo único atributo é o de seguir ordens, sejam elas quais forem; um casamento fracassado, terminado de forma catártica, o consumo desenfreado de drogas (que quase destruiu sua sanidade); são muitos os adversários que Roger Waters precisa vencer em nome de uma possível redenção.

E são visíveis os momentos eufóricos do show, em que o público, apaixonado, delirante, compra a briga, o discurso de Waters, e canta quase irracionalmente suas músicas. Seja em "Confortably numb" e o rapaz da primeira fila que quase vai às lágrimas; Seja no convite à guerra proposto em "Run like hell", seja na antológica e universal "Another brick in the wall" que ecoa durante todo o filme. "Pink Floyd é foda!", dizem meus amigos. "Roger Waters também", concluo eu.

Como pano de fundo o criador da obra passeia por suas memórias, afoga seus problemas num bar enquanto conversa com amigos, leva parentes ao túmulo onde o seu pai e o pelotão com o qual serviu (e morreu) estão enterrados, conta pesadelos que assombraram por muito tempo, fala da dificuldade que foi viver à margem da presença paterna.

Enquanto isso... Waters veste sua roupa de nazista, dispara projéteis na plateia, esmurra o muro, quebrando-o em mil pedaços, convido a plateia a reagir a um sistema capitalista falido, cujo único legado que produziu foi a miséria de milhares de nações e refugiados, abandonados à própria sorte, loucos, à procura de uma nova casa. E o que existe de mais magistral em The Wall é que nada é escondido de quem assiste, nada é disfarçada com o verniz da hipocrisia ou de belas imagens. Ele é um tapa na cara de opressores e puxa-sacos, de ladrões da fé alheia e bobalhões que idolatram esse sistema sem sequer conhecê-lo.

Para aqueles que exaltam obras-primas literárias e cinematográficas do lastro de 1984, Fahrenheit 451, Admirável mundo novo, Alemanha ano zero, Roma, cidade aberta e Cidadão Kane como definitivas para entendermos o século XX e suas distorções macabras, coloque daqui para frente The Wall nesse rol também. Mais do que um legado do século que terminou não faz muito tempo, e mais do que uma simples ópera rock, trata-se de um grande manifesto visando dias melhores. DIas melhores esses que estamos cansados de esperar.

"É preciso coragem para encarar o inimigo", grita o espetáculo a todo momento. com postura guerrilheira e radical. Mas a plateia parece não entender ou não querer comprar a briga. E enquanto não comprarmos a briga, não entendermos que se não partir de nós nada mudará, o muro continuará de pé. Seja o de Berlim, seja o do livro de Jean-Paul Sartre, seja o que o presidente Donald Trump queria construir para isolar o México.

E o que você está impondo a sua própria vida. Desde que nasceu.

Denunciar conteúdo

Tem algo a dizer? Esse é seu momento.

Se quer receber notificações de todos os novos comentários, deve entrar no Beevoz com o seu utilizador. Para isso deve estar registado.