Um império de más intenções

(13 dias longe do sol, 1 vida longe da ética)

Olhado de fora, sem reflexões mais complexas, é apenas uma obra. Uma obra atrasada, é bom que se diga, mas uma obra. Pretende-se um complexo médico exemplar que, segundo as palavras do engenheiro responsável, já se paga ainda na planta. Em tese, tem tudo para dar certo e o país (no caso, o Brasil) está sempre precisando de melhorias no que tange à saúde. Porém, tudo isso é mera retórica, mera especulação. No momento em que o prédio desaba e sobreviventes ficam soterrados em meio a uma tonelada de destroços, a história toma outro rumo. E no Brasil esse rumo, salvo raríssimas exceções, é sempre o da falta de ética e do oportunismo.

13 dias longe do sol, minissérie da Rede Globo recém encerrada, é mais do que simplesmente o relato de uma tragédia dentre tantas outras que acontecem no país e que ficam por isso mesmo. Não, meus caros leitores! Antes fosse apenas isso...

Voltando no tempo e só para ficar no óbvio, quem não se lembra do caso Palace e de seu construtor, o sórdido Sérgio Naya? Há muita gente lesada por ele que espera que esteja apodrecendo no inferno. O prédio protagonista desta história sofre de um caso semelhante: o da falta de estrutura (e de ética) de quem o construiu.

Pessoas como Saulo (Selton Mello) e Baretti (Paulo Vilhena), responsáveis pela maracutaia que levou o edifício ao chão, são meras pontas de um iceberg que já vinha descongelando há tempos. Uma história negra que já nasce no planejamento. Falo de benefícios, privilégios, economias, interesses escusos que afetam o todo sempre de maneira letal.

E essa consequência funesta é capaz de engolir qualquer pessoa que atravesse o seu caminho. Como é o caso do Calculista Newton (Enrique Diaz), que vira imediatamente bode expiatório antes mesmo que a investigação sobre as razões do desabamento comecem simplesmente por não ter experiência na área, e o Major Marco Antônio (Fabrício Boliveira), cujo erro do passado é o suficiente para afastá-lo do caso e encerrar as buscas rapidamente, pois a morte daquelas pessoas interessa - e muito - à empresa construtora.

Como pano de fundo dessa catarse imobiliária um rol sem fim de más intenções que, juntas, constroem o microcosmo de um país falido e interesseiro por natureza: funcionários ilegais, prazos estendidos, profissionais escolhidos sem o devido critério, chefes de setor que conseguiram suas carreiras através de amizades inescrupulosas, abutres aproveitando o desastre para comprar o que resta da empresa a preço de banana.

Enfim, uma comédia dos erros digna da dupla hollywoodiana Ethan e Joel Coen com direito a elementos que nossa nação vendem a torto e direito como poucas: falsidade, hipocrisia, ganância e a eterna mania de posar de empreendedor, que virou a tônica desse final de século XX e início do XXI.

Não há valor para a vida quando o que está em jogo são prazos e arrecadações. Por trás de toda obra há uma pós-obra (ou seja, a possibilidade de novos contratos com quem o contratou previamente) gerando uma bola de neve repleta de lucros que não acabam mais. Quando o contrato não é cumprido por alguma razão, seja ela política, técnica ou da própria natureza, normalmente a empresa prestadora do serviço precisa desaparecer, sumir do mapa, mudar de nome, regressar renovada (em outras palavras: pronta para um novo "golpe").

E o resultado disso: impérios construídos à base de escândalos varridos para debaixo do tapete e conhecimentos junto ao alto escalão do poder. Assim se fazem megaempresários. Assim o Brasil chegou ao ponto que chegou. Enquanto nós, cidadãos de bem, somos usados e massacrados ad infinitum.

13 dias longe do sol é uma série televisiva, é um retrato cruel de um país que faliu, de uma sociedade que optou por cruzar os braços a qualquer notícia ruim que aparece, e é também um tapa na cara de uma classe que se acha dona do mundo simplesmente porque se vangloria de conquistar altos orçamentos em licitações de cunho vaidoso.

Se por um lado é bem verdade que o mundo continua girando em meio ao caos e aos inescrupulosos, por outro também é verdade que estamos de saco cheio dessa manutenção da prepotência por parte daqueles que deveriam dar o exemplo - e nunca dão. A expressão obra aberta usada no meio audiovisual cabe bem aqui. Não encontramos respostas ou soluções para isso. E há uma sensação legítima de que nunca encontraremos.

Só que ficar omisso não parece mais tão simples como antigamente...

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