O Walt Disney brasileiro

(Maurício de Sousa e as histórias além dos gibis)

Maurício de Sousa é daqueles seres iluminados, que você fica encontrando algo de ruim para dizer a respeito e não encontra. Fez parte da minha formação cultural e literária tanto quanto Machado de Assis, William Shakespeare, Nelson Rodrigues, a Beat Generation, Ariano Suassuna e os romances policiais de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. E digo mais: provavelmente não fosse ele e sua turma da mônica eu não teria tomado gosto pelas palavras e pela língua portuguesa.

Dito isto: como se faz para escrever sobre um ídolo seu eterno?

Eu poderia ficar aqui, escrevendo uma tese de doutorado sobre o quadrinista e ainda assim sequer arranharia a superfície de sua história e de seu talento... Para minha sorte e a de muitos que, como eu, enveredaram por seu universo e personagens, o jornalista Luís Colombini percebeu que um gênio como esses não poderia ficar de fora do universo biográfico e tinha tanto direito quanto grandes nomes da cultura de possuir um livro de memórias sobre a sua vida. O resultado dessa decisão (e desafio) foi o ótimo Maurício: a história que não está no gibi.

Se existe uma definição perfeita que traduza a obra, ela é entretenimento. Maurício - pessoa e obra literária - divertem como poucos no país, e chegaram em lugares do mundo onde até então nenhum outro quadrinista de renome no Brasil conseguiu (até então) chegar. Contudo, a história antecede todas as suas glórias e vai contar fragmentos de sua infância, a ligação com o desenho desde cedo, a paixão eterna por gibis (um formato, então, rotulado como proibido, marginal) e suas primeiras tentativas de tentar trabalhar no segmento.

Aqui, o autor desabafa suas frustrações e caminhos percorridos que não levaram bem aonde ele queria chegar. Não esconde dos leitores que a opção por trabalhar como desenhista em tempo integral sacrificou seus estudos, não poupa antigos patrões de decisões arbitrárias e covardes tomadas por ele, não tenta vender a ideia de que o mercado de quadrinhos (para quem quer ingressar no meio) é um mar de rosas. Longe disso...

O garoto que na juventude cantou, trabalhou como repórter policial (isso mesmo!), foi copidesque de jornal, antes mesmo de produzir suas tirinhas, aprontou, desanimou, recomeçou e recomeçou e muito! Partindo do cãozinho Bidu, sua primeira criação publicada na imprensa até a consagração com a Mônica, inspirada por sua própria filha, fazendo estripulias dentro de casa, foram muitos percalços e atrasos. Porém, providenciais para que ele construísse uma marca de sucesso até hoje.

A relação com ídolos do passado (Alex Raymond e Will Eisner) e do presente (Hugo Pratt, Jim Davis, Stan Lee), a decisão ousada de migrar das tiras para uma revista autoral, a transposição complicada para o audiovisual (chegando a produzir uma longametragem dos Trapalhões todo em animação), as invenções modernosas como sessões de tv com cheiro e revistinhas com 3D, as inúmeras tentativas de publicar seu trabalho no exterior... São tantas as aventuras de Maurício para emplacar no meio quadrinesco, que por si só mereceria ser comparado com Indiana Jones.

Entretanto, há também espaço para histórias e experiências trágicas, como o sequestro do filho caçula, a briga por autoralidade junto aos Sindicates americanos e suas eternas artimanhas para se apoderar de criações alheias, o combate ao politicamente correto - um fenòmeno da covardia social contemporânea (sim, acreditem: teve gente incomodada com o teor das historinhas da Mônica) -, o processo contra a Rede Globo, entre tantas outras peripécias e jogos de cintura vividos por um homem à frente do seu tempo e que certamente incomodou os grandes (até mesmo a Disney) fazendo o simples.

Maurício: a história que não está no gibi só não é melhor porque não é maior. E olha que ele incluiu em suas memórias até mesmo a fase da Turma Jovem, sucesso recente baseado no mangá japonês. Ao fim, o autor fala de sonhos futuros, de projetos ainda por vir (mas que, por ora, devem ficar adormecidos, pois não é o momento de trazê-los à luz), do desenho de continuar produzindo enquanto tiver saúde para tal, da nova geração que certamente assumirá seu estúdio quando ele não estiver mais entre nós, e da família, cheia de grandes artífices do traço que parecem - a sensação que se tem é essa - ainda comedidos para assumir o bastão.

Terminadas as pouco mais de 400 páginas, com direito a um final-epílogo em quadrinhos, fica claro para mim, leitor, uma certeza que sempre tive sobre o escritor e desenhista Maurício de Sousa: ele é, e assim será por muitos e muitos anos, o nosso Walt Disney. Apontem-me um só, além dele, que tenha conseguido construir um legado tão gigantesco quanto esse, com mais de 300 personagens, e conhecido nos mais distantes países do mundo? Quem soube, deixe o seu comentário na caixa de diálogo do site. Até para que eu possa me atualizar melhor..

E uma pergunta final: como pode um país que produz um gigante desses no mercado da nona arte, e não consegue nem reconhecê-lo junto aos maiores nomes de sua história? Respostas também para os comentários...

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